O Jornal Nacional de 10 de junho de 2002 confirmou o que já sabíamos, mas relutávamos a acreditar. Enquanto fazia mais uma de suas reportagens investigativas, Tim Lopes havia sido mesmo capturado, julgado, condenado e assassinado pelo poder paralelo do crime do Rio de Janeiro. No fim daquela edição do JN, liderados por William Bonner, todos os jornalistas presentes na redação aplaudiram Tim.

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Foi emocionante. É comovente até hoje, quando revemos aquela homenagem dentro das comemorações dos 50 anos do Jornal Nacional.

Eu estava lá naquela segunda-feira de 2002. Eu era o chefe de Tim. Eu era amigo de Tim. Falávamos sempre sobre a vida, nossas famílias, nossos sonhos e tristezas. Discutíamos as possíveis pautas jornalísticas com humor. Conversávamos sobre os nossos times (ele, vascaíno; eu, alvinegro), sobre o carnaval (ele, Mangueira; eu, Império Serrano), sobre o futuro de nossa cidade, entregue à violência e sem política de segurança eficiente.

Três meses antes, em meu aniversário, Tim havia me dado dois presentes. Uma bola de futebol e um poema sobre o Maracanã. O primeiro desapareceu. O segundo está emoldurado e pendurado em meu apartamento até hoje – eu o revisito sempre.

Tim foi o jornalista mais humanista que conheci. Mostrava-se sempre preocupado com as pessoas menos favorecidas. É possível perceber isso no documentário “Tim Lopes – Histórias de Arcanjo”, dirigido por Bruno Quintella e Guilherme Azevedo.

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Bruno é filho de Tim. Também jornalista, ele um dia disse: “Meu pai fazia um jornalismo social, que é contar em primeira pessoa, sentir na pele a história do outro. Ele dormia com moradores de rua, se internava em clínicas clandestinas para denunciar maus-tratos, mostrava as condições de trabalho dos operários do metrô. Era uma coragem social.”

É assim que vou lembrar sempre de Tim. Humano, destemido, amigo, brilhante jornalista.

É assim, com as lembranças do corajoso Tim, que saúdo os 50 anos do Jornal Nacional.

É assim, com a risada larga e estridente de Tim sempre em meu coração, que saúdo a vida.

Viva a democracia!

Em “Carta para uma francesa”, coluna da semana passada, escrevi: “Usamos a agressividade e a intolerância para discutir coisas banais.” Pois alguns leitores me chamaram de “antipatriota, esquerdista, esquerdalha” e sugeriram que me mude para a França.

Como é bom viver numa democracia.

Abaixo a descortesia!

Aí vem o ministro da Economia e reforça a grosseria presidencial:

“O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado”, disse Paulo Guedes num evento, arrancando gargalhadas da audiência.

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É a indelicadeza sem limites.

Viva a Amazônia!

Do escritor Milton Hatoum, em poema sobre as recentes queimadas da Floresta Amazônica:

“Quando tudo for deserto,

o mundo ouvirá rugidos de fantasmas.

E todos vão escutar, numa agonia seca, o eco.

Não existirão mundos, novos ou velhos,

nem passado ou futuro.

No solo de cinzas:

o tempo-espaço vazio.”

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