Em um de seus contos mais brilhantes (“Casa Tomada”), o argentino Julio Cortázar provoca: “Pode-se viver sem pensar”. Claro que se pode, na vida se pode tudo. Muitos dizem que a ignorância é uma bênção – e muitas vezes pode ser mesmo, principalmente para os ignorantes. Mas viver sem pensar, nestes duros e macabros tempos, é um desafio gigantesco.
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Como não pensar nas 4 mil mortes diárias por Covid-19? Como não pensar nas 340 mil mortes, fora as subnotificações? Como não pensar na incompetência, na ineficiência e na falta de coordenação entre governos federal, estaduais e municipais no combate à pandemia?
Como não pensar nas pesquisas e no brilhante trabalho dos cientistas na busca por vacinas? Como não pensar na lentidão da vacinação? (E logo o Brasil, referência mundial com seu Programa Nacional de Imunização.) Como não pensar nos idiotas que fazem festinhas e aglomerações? Como não pensar nas famílias e amigos que sequer podem se despedir de seus amores?
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Como não pensar na coragem e no amor à vida demonstrados pelos profissionais da saúde? Como não pensar nas pessoas que passam fome pelas ruas e regiões mais carentes de todo o país? Como não pensar que temos um presidente da República desumano e negacionista, que debocha da morte, defensor dos tratamentos mais absurdos, todos sem qualquer comprovação científica?
É possível dormir sem pensar nisso tudo? Talvez, a ignorância pode ser uma bênção realmente. Impossível é dormir tranquilo, com a cabeça no travesseiro e não sentir tristeza, dor, angústia, indignação e, de vez em quando, raiva. “A ignorância sempre joga a favor do mal”, como diz o amigo Leo Aversa.
Neste mundo polarizado de ódio, outra tarefa inglória é revelar o que se pensa ou sente. Os que revelam pensamentos e sentimentos mais humanistas são atacados nas redes antissociais. Porque não há negociação, diálogo, conversação.
Tudo é trocado por xingamentos, ofensas, covardias. Pensou diferente, porrada – é assim a vida em tempos de notícias falsas, pós-verdades, campanhas de desinformação e difamação. É o que temos para hoje.
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Dias atrás o pensador e professor Clóvis de Barros fez uma provocação: O que é preciso para uma pessoa viver com suas convicções e seus princípios éticos e morais sem que seja atacada? Ele mesmo trouxe a resposta: “Ser gestor de sua própria história, na contramão da torcida, é hoje um ato de heroísmo”.
Não é preciso ser herói de nada. Mas se penso, existo. Se sinto, existo. Se estranho, existo. Se me incomodo, existo. Se tenho dores e alegrias, existo. Se tenho prazeres e medos, existo. Se amo e sinto raiva, existo. Não sei fazer de outro jeito. Não sei viver sem pensar. Só sei que nada sei. E existo.
Para refeltir
Do escritor Machado de Assis:
Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querem a originalidade, a simplicidade e a graça do dizer.
Do filósofo chinês Confúcio:
Pensar sem aprender torna-nos caprichosos, e aprender sem pensar é um desastre.
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Do escritor Mário Quintana:
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
Do filósofo grego Aristóteles:
O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.
Do filósofo espanhol Sêneca:
Raros são aqueles que decidem após madura reflexão; os outros andam ao sabor das ondas e longe de se conduzirem deixam-se levar pelos primeiros.
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