Aleluia, finalmente entramos em 2021. O funesto 2020 insistia em não acabar. Mas o novo ano começou 17 dias atrasado. Começou com a decisão, equilibrada e corajosa, dos técnicos da Anvisa pela liberação emergencial das vacinas do Butantan e da Fiocruz. É claro, as vacinas ainda são poucas, mas seu valor simbólico é inestimável.

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Trata-se de uma vitória sobre os radicais negacionistas que, de forma assassina, se opõem à ciência, à vida, à solidariedade, ao humanismo. Trata-se de uma vitória sobre os ignorantes que pregam tratamento precoce ou remédios sem qualquer eficácia comprovada na luta contra a Covid-19.

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Trata-se de uma vitória sobre os mentecaptos das redes sociais que disseminam notícias falsas e fazem campanha contra a imunização. Trata-se de uma vitória sobre a desorganização e a incompetência das autoridades municipais, estaduais e federais na luta contra o vírus. É uma vitória sobre a indignidade da omissão num país que já perdeu 210 mil vidas.

Três dias depois, o mundo viu a posse do novo presidente dos Estados Unidos. Foram quatro anos de trevas e caos. Quatro anos de um governo que incansavelmente atacou as instituições democráticas (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência), um governo que incessantemente negou a pandemia, um governo que sistematicamente apoiou a violência de grupos fascistas e supremacistas brancos, um governo que pesadamente jogou sujo para não aceitar a derrota nas urnas. Os americanos se despediram do pior ser humano que ocupou a Casa Branca nos últimos tempos.

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 A esperança agora se chama Joe Biden. Os desafios são gigantescos – combater a doença que não dá trégua e matou 400 mil pessoas, corrigir os rumos da economia, unir o país e curar as profundas feridas raciais, retomar a confiança e a força das instituições que sustentam a mais poderosa democracia do mundo. Mas nada pode ser pior do que um governante pateta, autocrata e esquizofrênico.

Enfim, 2021 deu as caras. E em seus primeiros momentos nos traz lufadas de fantasia. Nos oferece uma leve corrente de esperança. Nos faz despertar de sonhos intranquilos. Nos faz mergulhar na saudável ilusão de que podemos viver dias melhores, de que podemos acreditar que a humanidade não é inviável.

Feliz 2021! 

(Em tempo: a crise do oxigênio e as mortes em Manaus são resultado do obscurantismo, da incompetência e da omissão de autoridades federais e estaduais.)

Humor mordaz

“Faz de Conta que Nova York É uma Cidade” é um grande barato. Em sete episódios, o cineasta Martin Scorsese conversa com a amiga, escritora e polemista americana Fran Leibowtiz. É um show de humor e mordacidade em crônicas sobre a vida na metrópole mais importante e bagunçada do mundo.

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Ela conta como faz para fugir da insuportável Broadway, diz que NYC deveria ter dois prefeitos (um para o dia, outro para a noite), lembra dos tempos em que foi taxista nas caóticas ruas de Manhattan, garante que o Dalai Lama ficaria lunático em apenas uma viagem no imundo metrô novaiorquino, reforça o amor e o vício por livros e livrarias. 

– A leitura é gigantesca, meu mundo ficou bilhão de vezes maior com os livros. Pense antes de falar, leia antes de pensar – aconselha Fran, de 70 anos, nesta série divertida e imperdível.

A luta pelo bem

O escritor português Valter Hugo Mãe lembra que a Bíblia, na casa de sua família, era quase um ser vivo. Em “Contra Mim”, lindíssimo livro de memórias, ele escreve:

“Perante a profunda atrocidade do mundo, a Bíblia, cheia de sentimentos e tão antiga, sofria. Era um livro magoado. Ela sabia que os erros são cíclicos e que a humanidade aprende pouco, faz sempre o pior que pode. Eu ponderava muito nesta ideia, fazer tão bem quanto posso. Lutar para fazer o bem ao meu alcance. Nunca pior. Isso negaria a míngua de dignidade com que vivemos”.

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