Pelé disse, no dia 19 de novembro de 1969, que o Brasil deveria cuidar de suas crianças. Foi no Maracanã lotado, na noite em que ele fez o milésimo gol da carreira. Eu tinha oito anos. Catia, minha irmã, nascia naquele momento. Lembranças que sempre enchem os olhos.

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A súplica do Rei Pelé virou motivo de deboche, não foi levada a sério pelos governantes e pela sociedade. Quase 50 anos depois temos crianças fora das salas de aula, crianças fazendo trabalho escravo, crianças abusadas sexualmente, crianças exploradas pelo tráfico de drogas, crianças doentes por falta de vacinas, crianças vivendo em bairros sem esgoto, crianças pedindo dinheiro e comida em sinais de trânsito, crianças morrendo com fome, crianças assassinadas por balas perdidas de policiais e bandidos. Que país é esse?, vivemos a perguntar.

Recente relatório da Unicef (o braço das Nações Unidas para a infância) mostrou que mais de 175 milhões de crianças não estão matriculadas numa escola em todo o mundo. Meninos e meninas que começam a vida sem oportunidade. Nos países de baixa renda, informou o estudo, o quadro é pior: apenas uma em cada cinco crianças está matriculada. As desigualdades começam aí. Que mundo é esse?, costumamos perguntar.

Vivi uma infância alegre em bairros de classe média-baixa do Rio de Janeiro. Soltava pipa, jogava bola de gude, era o goleiro do time de futebol da rua. Estudava numa escola pública, em que aprendi a admirar e respeitar os professores. (Professores que hoje, vira-e-mexe, são agredidos por crianças em salas de aula.)

Minha primeira grande memória como ser humano é a Copa de 1970. Aqueles caras dando show de futebol no México, a gente fazendo a festa nas ruas. Saíamos num bloco, meus pais, minhas irmãs e eu, para comemorar as proezas de Pelé, Rivellino, PC Caju, Tostão, Gérson, Jairzinho & Cia. Lembranças que sempre encherão meus olhos.

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Sim, o Brasil teve avanços. Mas é ainda um dos países mais desiguais do mundo, de acordo com estudos também da Unicef. O grito de Pelé, 50 anos atrás, precisa ser ouvido hoje. É fundamental garantir todos os direitos às crianças. Educação, alimentação, saúde, nome, nacionalidade, escola, proteção, amor. Assim se faz um país verdadeiramente sério e digno de respeito.

Um provérbio chinês diz que “o grande homem é aquele que não perdeu a candura de sua infância”. Meus sonhos de menino, por um mundo justo e oportunidades iguais para todos, jamais saem de mim.

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A vida doce

Do poeta Carlos Drummond de Andrade, para continuar no tema:

“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.”

Somos o que fomos

Para seguir em frente, o poeta Manoel de Barros:

“Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos.”

Feliz Dia das Crianças a todos!

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