Duas semanas atrás um amigo fez a provocação. Pessimista, disse-me que, com a chegada das vacinas, o “movimento dos fura-fila” sairia dos esgotos com força total. Otimista, duvidei, respondi que acreditava na solidariedade e no humanismo dos brasileiros. Almoço apostado, perdi legal. Devo, não nego, pagarei quando puder.
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As vacinas contra a Covid-19 apareceram – e em vários estados a malandragem deu as caras. A malandragem e algumas de suas companheiras, como a covardia, a crueldade, a velhacaria, a patifaria, a safadeza, a boçalidade, a ignorância, a desumanidade. Tudo isso travestido em políticos desclassificados e antiprofissionais da saúde. O horror.
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Em artigo publicado no “Estado de S.Paulo”, o antropólogo e escritor Roberto DaMatta afirma: “Como filho mais velho, fui sempre o primeiro, mas tive o privilégio compensado sendo obrigado a ‘dar o exemplo’. Justo o que falta no Brasil que, somente agora, começa a exigir que prioridades e privilégios tenham como contrapartida o exemplo, a honestidade, o equilíbrio, a sinceridade e a competência”.
Pensando de forma clara e simplista, o que esperar de certa gente deseducada e acostumada a querer levar vantagem em tudo? Vivemos num país em que o governo federal gasta R$ 15 milhões em leite condensado e luta contra a ciência. O país da gripezinha, dos mariquinhas, dos negacionismos, das rachadinhas, do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Vivemos numa sociedade cuja elite desconhece e desrespeita valores básicos de cidadania e de onde vêm todas as demonstrações, possíveis e impossíveis, de picaretagens e maus exemplos.
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As vacinas ainda são poucas. Muitas outras demorarão para chegar. Depois de tanto sofrimento e isolamento, a pressa e a ansiedade são sentimentos legítimos. Dos governos municipais, estaduais e federal esperam-se clareza, organização e logística eficazes para que a imunização chegue a todos, de todas as regiões, de todas as classes sociais, de todas as idades. Não podemos nos orgulhar de como o país tratou e combateu a Covid-19. A vacinação é uma chance para a redenção – sem trapaça, sem sacanagem, sem jeitinho, sem carteirada, sem “sabe-com-quem-está-falando”.
O preço do otimismo e da honestidade costuma ser bastante alto. Acreditar que as coisas possam dar certo faz qualquer maluco perder a cabeça. Mas sonhar ainda é de graça. Quem aposta?
Meus pais têm mais de 80 anos. Ambos serão vacinados no fim de fevereiro, no Rio de Janeiro. A emoção me invade. Temos que ser eternamente gratos aos cientistas e pesquisadores de todo o mundo. E sigo apostando tudo o que tenho no humanismo e na ciência.
Do ator francês Omar Sy:
“A ideia de legado me move – o que é que nós retemos e o que repassamos? Para mim, esse é o verdadeiro significado da vida, e o que nos torna humanos”.
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Do presidente chinês Xi Jinping:
“Cada país é único e nenhum é superior ao outro. Não há civilização sem diversidade, nossas diferenças são tão antigas quanto as sociedades humanas”.
Do pensador alemão Nietzsche:
“Que não sejamos covardes em relação a nossos atos! Que não os abandonemos uma vez consumados! O remorso é indecente”.
De Martin Baron, diretor do jornal “Washington Post”:
“O que eu gosto é do jornalismo que explica o mundo, que explica assuntos com nuances, mais profundos. Tudo que puder para fugir de slogans de políticos, de comentaristas com frases feitas”.
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