As efemérides, o que seríamos sem as memórias? Aquelas datas que marcam eternamente a alma e o coração. Onde e com quem estávamos? O que fazíamos? Elas nos levam de volta à infância, fazem revolver o que passamos – com tudo de positivo e negativo que carregamos em nossas ordinárias histórias. Ah, as efemérides.
Continua depois da publicidade
Terça-feira passada, 16 de junho, o Maracanã virou setentão. Meu pai me levou ao primeiro jogo quando tinha sete anos, em 1968. Ele, rubro-negro. Eu, ainda em dúvida. Final, Botafogo 3 x 0 Flamengo. Meu corpo ganhou uma estrela solitária. Toda aquela atmosfera vulcânica começava a me revelar uma paixão. Desde então, seja o Maracanã-raiz de outrora ou o Maracanã-coxinha de hoje, jamais o abandonei.
Engana-se quem pensa que o mais simbólico e carismático estádio do mundo é apenas futebol. Aquilo é uma gigantesca escola de vida. Lá dentro tive aulas de democracia e diversidade; aprendi a respeitar a pluralidade de credos, classes, cores; a conhecer as intensas contradições e desigualdades de um país chamado Brasil.
Já neste domingo, 21 de junho, a conquista do tricampeonato mundial chega ao cinquentenário. Com nove anos em 1970, assistia aos jogos também com meu pai. Um aparelho de TV mixuruca, as imagens chuviscadas, a ditadura comendo solta aqui, os espetáculos de Pelé, Gérson, Rivellino, Jairzinho & Cia lá no México. Aquela seleção me fez declarar amor eterno ao futebol.
Depois de cada vitória saíamos às ruas. Buzinaço, samba, fogos de artifício e pequenos balões colorindo o céu, desconhecidos se abraçando, festa sem sinal de fim. Eu, um menino, curtindo a infância, jogando bola e botão, rodando pião, soltando pipa. Enquanto isso, pessoas eram arrancadas das famílias, presas, espancadas, torturadas, assassinadas pelo regime militar.
Continua depois da publicidade
Hoje, 50 anos depois, covardes escondidos atrás de nomes fictícios vão às praças públicas e às redes antissociais atacar instituições, defender a volta da repressão, pregar a morte de nossa jovem democracia. O horror, o horror.
Voltemos a falar de coisas boas. O futebol é mais do que um jogo. Graças a ele fiz grandes amigos, conheci alguns países, admirei muitos craques. No Maracanã, sorri e chorei, perdi e ganhei, sofri e vibrei, xinguei e amei. O futebol ajudou a forjar o que sou. Me ensinou a viver. Mostrou que a liberdade e o respeito às diferenças serão bens inegociáveis até o fim de meus dias.
Pra que a pressa?
A fase decisiva da Liga dos Campeões da Europa, das quartas de final para frente, terá sete partidas. Serão jogadas em Lisboa, em agosto, com a Europa escapando da pandemia.
Já o Catarinão, também das quartas de final para frente, deverá ter 14 jogos, a partir de julho, com o Brasil ainda convivendo com as mortes provocadas pela Covid-19. Nós somos realmente uma piada.
Continua depois da publicidade
Do genial Bob Dylan sobre a imprensa, em entrevista ao “New York Times”:
“As boas notícias são como um fugitivo, no mundo de hoje, tratadas como bandidas e obrigadas a fugir. Castigadas. Tudo o que temos são notícias boas de detestar. E precisamos agradecer ao setor de mídia por isso. Fofocas e gente lavando roupa suja. Notícias sombrias que deprimem e horrorizam.”
Leia Mais:
As duas pandemias
Da artista sérvia Marina Abramovic:
“As pessoas estão estressadas, sentem cada vez mais medo da morte. Acho que elas deveriam se cercar de beleza. E mergulhar em si mesmas.”
Do escritor manauara Milton Hatoum:
“O Brasil talvez seja o único lugar do mundo onde o governo é incapaz de lidar tanto com a pandemia quanto com a democracia.”