Trabalhei em duas eleições nos Estados Unidos. A primeira, em 2004, zero surpresa, zero emoção. Depois das carnificinas comandadas por ele no Afeganistão e no Iraque, George W. Bush derrotou sem sustos o insosso John Kerry e ficou mais quatro anos no poder. Em 2008 foi outra história.

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O mundo estava ligado no que os americanos fariam com o futuro de todos nós. “O que esses caras vão aprontar?”, nos indagávamos. O país estava numa crise econômica terrível. A eleição marcaria o fim da era Bush Filho. Hillary Clinton era a grande esperança para a retomada de tempos suaves e menos conturbados — mesmo com o famoso temperamento da ex-primeira-dama. De repente, numa prévia do Partido Democrata, surge Barack Obama. Surge e segue. Segue e cresce. Cresce e vai. Vai e torna-se invencível. Quase 10 meses depois, Obama seria eleito o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

O 20 de janeiro de 2009 não sai da cabeça. Fazia um frio cruel. Do escritório em Nova York, comandava um time de craques espalhados pelo país: Lilia Teles, Giuliana Morrone, Rodrigo Bocardi, Jorge Pontual e Rodrigo Alvarez. Em Washington, o correspondente Luís Fernando Silva Pinto era o responsável pela grande reportagem do dia para o Jornal Nacional: o discurso de Obama, frente à maior concentração de pessoas já reunidas numa posse presidencial americana, tudo a quatro graus abaixo de zero.

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A gente vai envelhecendo e ficando mais saudosista, um tio Sukita tomado por lembranças — algumas alegres, outras melancólicas. Outro americano, John F. Kennedy, disse: “Às vezes é preciso parar e olhar para longe, para podermos enxergar o que está diante de nós”. E agora estamos diante, de novo, de mais um momento importante para o mundo inteiro. 

De um lado, o candidato que ocupa a Casa Branca há quatro anos — xenófobo, machista, supremacista, misógino, baratinado, negacionista. Do outro, o insípido democrata que foi vice nos mandatos de Obama. Nas pesquisas, este leva vantagem sobre o republicano, o que não significa muita coisa. Lá a eleição é quase indireta: o povo elege os delegados e esse colégio eleitoral, na prática, escolhe o presidente e seu vice, tudo de acordo com o tamanho de cada Estado. Confuso e bizarro, mas os Estados Unidos continuam a maior democracia que existe. (Nestas mesmas eleições, além de decidir entre Trump e Biden, os eleitores votarão numa série de plebiscitos estaduais, como descriminalizar o acesso a drogas, dar mais espaço a jogos de azar e aumentar os direitos trabalhistas de entregadores de aplicativos).

Esta é a oitava eleição que Luís Fernando Silva Pinto, santista roxo e amigo querido, cobre nos Estados Unidos. Sobre 2008, ele afirma: “Que maturidade do eleitorado americano eleger um presidente negro depois de uma guerra civil e séculos de discriminação”. E sobre 2020, ele acrescenta: “É o topo da febre: polarização política, pandemia, medo de depressão econômica. Em topo de febre, nunca se sabe. O dia seguinte pode ser o começo da cura. Ou o caminho do hospital”.

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Terça-feira, 3 de novembro, é dia de trabalhar e ficar ligado na televisão. É dia de acompanhar a eleição mais importante do planeta. É dia de mexer com as memórias inquietas e persistentes do tiozão aqui.

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Do escritor paulista João Anzanello Carrascoza:

Se o nascer é um sair da terra e o morrer um retornar a ela, as duas pontas, embora em tempos distintos, igualam-se um dia.”

Do escritor japonês Haruki Murakami:

Quando você sair da tempestade, você não será a mesma pessoa que era quando entrou. Esse é o objetivo dessa tempestade.”

Da escritora israelense Ayelet Gundar-Goshen:

A distância entre uma pessoa faminta e uma pessoa saciada é maior do que a distância entre aqui e a lua.”

Da escritora britânica Bernardine Evaristo:

Quero colocar a presença na ausência.”