Em 1947, o diplomata e advogado Oswaldo Aranha presidiu a Primeira Sessão Especial das Nações Unidas. O mundo estava destroçado, havia acabado de sair da Segunda Grande Guerra. Populações foram dizimadas pela barbárie do nazifascismo. Aranha havia sido o ministro das Relações Exteriores do Governo Getúlio Vargas (1938 a 1944) e era, então, o chefe da delegação brasileira em Nova York.

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Coube a ele comandar aquele evento – marcado pela importante e delicada decisão de se criar o Estado de Israel. Seu trabalho, de estadista, foi brilhante e desde então cabe ao Brasil a honra de abrir as assembleias da ONU. O discurso de abertura de Oswaldo Aranha, no dia 16 de setembro de 1947, é considerado até hoje uma aula de diplomacia mundial. Ao lado, reproduzo quatro pequenos trechos que soam completamente atuais. 

Viajamos no tempo e no espaço, 74 anos depois, para a mesma Nova York. Um brasileiro sobe à tribuna da ONU, na abertura da Assembleia-Geral. Apoiado pelos bajuladores fanáticos (entre eles, o patético ministro da Saúde), ele fala aos seguidores como se estivesse no curralzinho de seu palácio. De uma das principais metrópoles do mundo, prega para maníacos já convertidos. Mente, exagera, tergiversa, fantasia, inventa, engana, enrola, ludibria, embroma, distorce, deturpa, delira. Faz boa parte de sua gente sentir uma vergonha do tamanho do planeta Terra.

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O brasileiro é o único líder de um grupo de países ricos mais a União Europeia (o G20) declaradamente não vacinado. Ele está completamente distante da figura e da liturgia de um estadista. No discurso, faz questão de mostrar a versão do país que comanda como um país paralelo, onde não há fome nem miséria, onde o meio ambiente e os índios estão protegidos, onde não há inflação nem corrupção, onde não morreram 600 mil pessoas vítimas de uma pandemia que ele mesmo tratou de negar o tempo todo. Ele também critica a vacinação e o passaporte sanitário, afirma que seu país estava à beira do socialismo quando assumiu o poder. A sucessão de delírios, desatinos e alucinações não tem fim, nem merece ser aqui descrita.

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Até que o Brasil faça por merecer, a ONU deveria pôr fim a essa reverência prestada graças a Oswaldo Aranha. Deveria, simplesmente, retirar o direito honrosamente concedido ao país de abrir o evento. Para o bem da própria Assembleia-Geral, que não teria a relevância e a reputação jogadas no esgoto. E para o bem de uma boa parcela de brasileiros, cansados de pagar por vexames e constrangimentos. Sempre será uma luta inglória tentar explicar o inexplicável ao mundo civilizado.

Frases do discurso de Oswaldo Aranha na Sessão Especial das Nações Unidas:

O momento atual é grave; como o são todos os dominados pelas dúvidas e pelas decepções. Assim como a doença nos mostra os benefícios da saúde, a guerra também nos traz a vantagem de odiá-la, e fazer-nos amar ainda mais a paz.
As ideias são mais poderosas do que as máquinas. O poder espiritual, maior que o da matéria, aumenta sem cessar o poder da inteligência humana e a necessidade de convivência social. Elas são as forças mais poderosas que existem e terminarão por vencer todos os obstáculos, barreiras e resistências.
A vida é uma obra de contínua superação, e para isso a liberdade é uma condição ineludível (inevitável). A democracia é um imperativo da civilização e da cultura. O mundo melhora sem cessar e continuará a melhorar cada vez mais. A paz permanente surgirá como uma consequência dessa evolução material e moral do mundo.
A vida é uma obra de contínua superação, e para isso a liberdade é uma condição ineludível (inevitável). A democracia é um imperativo da civilização e da cultura. O mundo melhora sem cessar e continuará a melhorar cada vez mais. A paz permanente surgirá como uma consequência dessa evolução material e moral do mundo.

> Nos momentos vagos, leio contos de quatro autoras sul-americanas: a equatoriana María Fernanda Ampuero (“Rinha de galos”), a chilena Andrea Jeftanovic (“Não aceite caramelos de estranhos”), a argentina Mariana Enriquez (“As coisas que perdemos no fogo”) e a boliviana Giovanna Rivero (“Terra fresca da sua tumba”). Elas me ajudam a escapar da estupidez do cotidiano.

> Do romancista alemão Thomas Mann: “Uma das situações da vida mais cheia de esperanças é aquela em que estamos tão mal que já não poderíamos estar pior”. 

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> Para jamais esquecer, o curto e famoso discurso de Odorico Paraguassu na ONU, em 1973: “Senhoras e senhores, deixando de lado os entretantos e indo direto aos finalmentes, estou aqui para matar a cobra e mostrar o pau, porque para mim é pão-pão, queijo-queijo”.

Leia na íntegra o discurso de Oswaldo Aranha:

Está inaugurada a Segunda Assembleia Geral das Nações Unidas. O mundo a espera com ansiedade, e também nós, os mais diretamente interessados na solução dos problemas internacionais, sentimos do mesmo modo a sua necessidade, para pôr fim às suspeitas mundiais, e às nossas próprias.

Na realidade, desde a sua última sessão, pouca coisa pôde fazer a Organização das Nações Unidas. Assim sendo, cabe-nos agir. E, apesar de no programa da Assembleia Geral constarem numerosos assuntos, todos eles, na verdade, podem ser resumidos num só: a escolha do caminho que será trilhado pelas Nações Unidas.

O nosso verdadeiro programa é espiritual, o nosso tratado não é apenas um pacto entre países. É também um pacto com os seus destinos como países. Aqui será organizado um mundo em paz, ou surgirá a guerra.

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O momento atual é grave; como o são todos os dominados pelas dúvidas, e pelas decepções. Mais de dois anos já se passaram desde o fim da guerra, porém, não conseguimos ainda uma verdadeira paz. Todos os grandes conflitos são ineludivelmente seguidos por um período de reconciliação. Assim como a doença nos mostra os benefícios da saúde, a guerra também nos traz a vantagem de odiá-la, e fazer-nos amar ainda mais a paz.

Assim, pois, a luta que se segue às guerras é de caráter espiritual. Nela, sucumbirão todos aqueles que não aprenderam as lições do período de tormentas. Portanto, a vontade deve ser humana, pois, do contrário, contradiria os fundamentos essenciais da vida. O mundo totalitário percebeu que quis afogar a liberdade da consciência humana. As conquistas espirituais não podem ser anuladas pela força bruta.

A guerra que passou e que afetou a todos os povos e todos os seres humanos, pois nenhum deles conseguiu escapar aos seus efeitos, necessariamente produzirá uma paz que será baseada no consentimento universal. Compreendemos que esse consentimento não é obra de um dia nem uma consequência automática da cessação das hostilidades.

Todavia, seria inútil deixar passar o tempo em vão, para consolidar as aspirações e necessidades pacíficas dos povos. As conquistas pacíficas são lentas, não se justificam as demoras desnecessárias. Esta organização precisa remover as dificuldades momentâneas, da mesma forma como os países que são seus membros venceram a guerra, quando parecia perdida, a fim de manter a paz. Temos que aceitar a superioridade dos povos e dos seus governos, depois da experiência passada, no período que não desejamos sucumbir.

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Esta organização vê a paz como consolidação das obrigações conjuntas dos países vencedores e a subordinação justa e consciente dos vencidos à ordem internacional, criada pela Carta das Nações Unidas.

A nossa finalidade é aproveitar as lições do erro e a consciência do mal, para facilitar a obra de aperfeiçoamento pacífico material e moral de todos os povos. Todavia, essa tarefa será impossível se não soubermos tirar, da última guerra, com maior força que os conflitos precedentes, a decisão de proibi-las para sempre, na vida dos povos.

Não é suficiente colocar armamentos de destruição em massa, como os gases asfixiantes e a bomba atômica, à margem da lei. Devemos condenar não só as armas, como também os ideais guerreiros e todos os que se aproveitam dos progressos pacíficos da ciência para fomentar a guerra e a destruição, em lugar de procurar, com tais progressos, aumentar o bem-estar dos povos.

Com o triunfo da razão, surgirá uma paz duradora e nunca devemos tornar as armas, e sim os princípios, os responsáveis pela utilização daquelas. Queremos conservar o mundo dentro da razão; unindo as diversas raças; facilitando a convivência das religiões diferentes; universalizando as ciências e as artes; coordenando os interesses; abrindo na vida comum dos povos, através da civilização e da cultura, possibilidades imensas para o futuro da humanidade.

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Aproxima-se uma humanidade com a qual sonharam os utopistas. Não devemos deixar passar esta oportunidade. Porém, como toda a obra humana, isso exige paciência, sabedoria e constância, na sua realização. E este é o trabalho de que está incumbida esta Assembleia: a luta que caracteriza esta fase do pós-guerra deve ser resolvida pelas ideias, e não pelas armas. Não podemos estabelecer um mundo de nações suicidas. Assim, a questão deste momento é fazer com que todos os países, todos os homens, tenham confiança nesta Organização. Só assim os desarmaremos para a guerra e os aprestaremos para a paz e para a amizade.

Esta é a razão de ser e a finalidade das Nações Unidas. E para isso nos reunimos aqui. Jamais, no curso da história, concertaram-se para esta obra de conjunto, tantas forças materiais e espirituais como agora o fazem; não só para manter a paz como um equilíbrio político, mas também para encontrar meios e adotar iniciativas que possam suprimir as guerras, como solução para os problemas da vida. Isto aqui não é uma simples organização política. Não é mero pacto entre nações. É um acordo entre os sentimentos e os pensamentos humanos. Aqui verificaremos se os povos aprenderam a se conhecer e a confiar uns nos outros; se poderão solucionar fraternalmente os seus diversos problemas.

Para aqui afluirão todas as discussões, todas as dúvidas e todos os conflitos que afligem os povos. Virão à procura de solução. Muitos deles são seculares e parecem insolúveis; outros surgiram das situações oriundas da complexidade sempre crescente dos problemas econômicos e sociais. Não conheço nenhum outro empreendimento mais digno da inteligência humana; para o conhecimento humano e para a boa vontade dos povos e governos. E é necessário fazer-lhe frente se não desejarmos que o mundo sucumba. Estou certo de que o império da razão, que domina grande parte do mundo, acabará por se impor em todo ele, facilitando o trabalho da paz.

As forças da resistência terminarão por ceder ante as novas concepções que surgirão desta Organização, para incluir todos os povos. Não existem conflitos eternos. Tal é a experiência da vida humana. A guerra não pode ser permanente, como ainda não o é a paz. A vida é uma obra de contínua superação, e para isso, a liberdade é uma condição ineludível. A democracia é um imperativo da civilização e da cultura. O mundo melhora sem cessar e continuará a melhorar cada vez mais. A paz permanente surgirá como uma consequência dessa evolução material e moral do mundo. Todavia, reconheço que tal evolução poderá encontrar obstáculos e atrasos, crises em sua evolução. É uma função das Nações Unidas evitar essas interferências e atrasos e promover a cooperação necessária para a comunidade mundial.

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Neste momento, vemos uns países vencidos, outros vencedores, uns confiantes, outros atemorizados, porém, quase todos eles desesperados. A paz que reina nas nações ocupadas é uma paz imposta pelas armas e para os países ocupantes, isso implica manter grandes contingentes mobilizados. A Europa é atualmente uma tragédia econômica e uma interrogação militar. Na Ásia, ainda não cessou a maré de sangue agitada pela guerra. Apenas a América continua sendo o continente da paz.

Não serão devido a isso as únicas forças políticas que resolverão o problema do porvir, do mundo. Não acredito, também que o mundo poderá desenvolver-se sob o poderio militar dos povos. Agora estamos perfeitamente convencidos de que outros fatores econômicos, sociais e culturais terminarão por se impor. Não serão as alianças nem as “ententes” as que cuidarão do equilíbrio mundial. Também não haverá nações autônomas. O mundo atual é mais consciente e realista, mais livre e senhor dos seus destinos, apesar de isso não ser igual em todos os países. A obra das Nações Unidas deve pender cada vez mais intensamente para a orientação dos povos e da consciência dos homens, para que tenham confiança nesta instituição e nos princípios e fins desta Carta. Poderá alguém dizer que existem zonas impenetráveis a tais ideias. A natureza dos povos análoga. Todavia, não existem terrenos suficientemente fortes para impedir a penetração das modernas invenções, que permitem perfurar os terrenos graníticos com que em outros menos resistentes se proceda anteriormente.

As ideias são mais poderosas do que as máquinas. O poder espiritual, maior que o da matéria, aumenta sem cessar o poder da inteligência humana e a necessidade de convivência social. Elas são as forças mais poderosas que existem e terminarão por vencer todos os obstáculos, barreiras e resistências, impondo-se sobre as necessidades e os espíritos reconciliados de todos os povos. Teremos ante nós, nesta próxima década, uma etapa de dúvidas e de insegurança, o que é inevitável, pois trata-se de um período de convalescença, durante o qual a doença se apresenta como permanente e nos parece ser impossível recobrar a saúde.

Decaem as forças morais e as forças espirituais parecem estar anquilosadas e confusas. Está à nossa espera uma atmosfera de pessimismo e desalento, que debilita os homens e as nações. Todos os males, tanto morais como espirituais se agravam e um profundo desânimo parece esgotar todas as energias da humanidade. Porém, senhores delegados, esta organização surgiu da necessidade de superar os males desta catástrofe. A paz não foi vencida nos campos de batalha e não pode ser enfraquecida em nossas reuniões. As resistências que se opõem à sua compreensão unânime fundamentam apenas os meios e modos de consegui-la.

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Nós temos o dever de encontrar os meios de conciliar essas diversas atitudes, ante um bem comum. Assim, o caminho para a paz é o mesmo, porque não existem várias pazes e sim uma só paz, que foi iniciada em São Francisco e deverá terminar em Nova York, aqui nas Nações Unidas. Não existem alternativas nem lugar para opções. É uma tarefa ineludível e é a missão desta Assembleia. O mundo aqui representado só poderá dividir-se pela incompreensão dos homens, pelo nosso fracasso no que de nós espera o mundo. O processo histórico e natural tende para uma crescente solidariedade nos destinos humanos. E essa tarefa nos pesa sobre os ombros. Devemos realizá-lo com a consciência do dever assumido e firme determinação.

Ao desocupar esta presidência, à qual fui elevado pelo voto quase unânime das Nações Unidas, quero mais uma vez expressar a minha gratidão pela honra que me foi conferida e pela vossa confiança; bem com a minha fé nesta organização. Desejo afirmar mais uma vez, ainda, que todos os países que agirem fora desta organização agirão mais em favor da guerra do que em favor da paz.

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