O show de Caetano Veloso & filhos, semana passada, alimentou a alma sofrida, acarinhou o coração ferido. Mas o corpo permaneceu pesado, sem alívio. Era véspera das cem mil mortes provocadas pela Covid-19 no Brasil. Era antevéspera do Dia dos Pais – e quantos pais perdemos e quantos outros vamos perder nessa conta macabra.

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Senti a melancolia que o cronista Antonio Prata resumiu perfeitamente: para ele, a live de Caetano soou “a um réquiem para um país defunto, de projetos defuntos, de esperanças defuntas, com uma autoimagem defunta”. Vou além: um réquiem para um país dominado pela ignorância, brutalidade, pela falta de compaixão. Um réquiem para um país cujo governo ineficiente e desumano alimenta a cólera e a polarização.

> A estupidez humana

Neste mesmo fim de semana que choramos cem mil batalhas perdidas e celebramos a generosidade com a arte de Caetano Veloso, debrucei-me sobre três obras. A ideia? Tentar entender o que acontece neste país e em outros cantos do mundo. O resultado? Continuo ainda mais atordoado e cético sobre um futuro melhor.

De saída, ataquei dois livros. No primeiro, “A Máquina do Ódio”, a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello mostra como a internet é usada para propagar movimentos que tentam destruir a democracia. Mostra também como a influência e a dominação das redes antissociais, por líderes populistas, levam a ameaças à liberdade de imprensa e aos direitos individuais.

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Patrícia é uma repórter experiente. Cobriu conflitos pelo mundo, viu de perto o sofrimento dos refugiados. Também acompanhou o crescente uso das mídias sociais em eleições nos Estados Unidos (2008, 2012 e 2016) e na Índia (2014 e 2019). Foi no Brasil, às vésperas do segundo turno da eleição que levou o atual presidente ao poder, que ela se tornou alvo de uma violenta campanha de difamação e intimidação. Tudo estimulado por milicianos digitais.

> O poder da arte

“Essa máquina de ódio é parte essencial dos governos populistas, que precisam demonizar opositores, jornalistas, para inflamar sua base e distrair apoiadores de notícias negativas”, disse Patrícia a esta coluna.

A cultura da raiva “não traz nenhum ganho civilizatório”, afirma a filósofa e jornalista alemã Carolin Emcke em seu novo livro, “Contra o Ódio” (minha segunda leitura). Carolin e Patrícia seguem a mesma pegada: todo o mal é intensificado pelas redes antissociais. “O Facebook e o Google parecem ignorantes quanto à responsabilidade de controlar não só mentiras e desinformação, mas sobretudo crimes de ódio e de incitação ao ódio”, disse a alemã em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”. Ela avança: “É crucial que os jornalistas entendam que eles devem ser imparciais em relação a diferentes partidos políticos, mas parciais em relação à verdade e aos direitos humanos”.

Fechados os livros, fui para a televisão. Na telinha, o pertubador e assustador “Rede de Ódio”. O filme de Jan Komasa mostra a história de um rapaz que transforma ressentimentos em habilidade para a cólera. Numa agência, ele é contratado para desinformar, destruir reputações, conspirar. Komasa sabe do que está falando: sua Polônia é presidida pelo ultraconservador Andrzej Duda.

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> O bloqueio

Em tempos de desconstrucionismos, política asquerosa de cancelamentos, campanhas de desinformação, notícias falsas e tanto ódio, é fundamental insistir na busca pela verdade. Luta incansável, inesgotável, obstinada. Sobre isso, nada mais contudente do que um discurso da jornalista britânico-iraniana Christiane Amanpour. Em 2016, ano da eleição que levou Donald Trump à Casa Branca, ela disse: “Aparentemente, boa parte da mídia se perdeu em meio a tentativas de discernir entre o que é equilíbrio, objetividade, neutralidade e o mais crucial: a verdade. Eu acredito em ser verdadeiro, não em neutralidade. E acredito que precisamos parar de banalizar a verdade”.

Zé Ramalho escreveu a música “A Peleja do Diabo com o Dono do Céu “. Parafraseando o cantor paraibano, vivemos a dura peleja do ódio contra a verdade no reino da terra. Escolher o caminho certo e ficar do lado do bem, neste momento, faz toda a diferença.

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