Se não estivéssemos vendo na televisão, pareceria ficção. Eles mentem, enrolam, gaguejam, fingem. Deixam de ser machões valentes. Atacavam e agrediam instituições democráticas, outros países, adversários políticos, a liberdade de informação e de expressão. Agora posam de carneirinhos fofinhos. Falam baixinho, em tom cordato. Eh.. Hããã…Eh… Hãããã… Foi… Eh… Hããããã… Negacionistas compulsivos, hoje tentam renegar o que disseram e o que escreveram. Encurralados, acovardados, acuados nas cordas, admitem que fizeram tudo errado: ignoraram a busca por vacinas, optaram por encher o país de cloroquina (remédio sem eficácia comprovada pela ciência na guerra mundial contra a Covid-19). O resultado de tanta estupidez, ignorância, omissão e negligência: o brasil está perto dos 450 mil mortos.
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É um espetáculo dantesco e patético. Mas faz todo sentido no país onde o senhor excelentíssimo presidente da República classificou a pandemia como “gripezinha”, sempre deu sinais de desapreço aos valores mais essenciais da existência humana e, dias atrás, chamou de “idiotas” aqueles que ainda tentam se proteger contra o coronavírus. Enquanto isso, imunizantes chegam aos pouquinhos, cientistas falam da possibilidade da terceira onda (o inverno está logo ali) e pessoas continuam morrendo.
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Em pontos do mundo civilizado, que sofreram e se esforçaram para salvar vidas, vemos agora a luz no fim do túnel. Nos Estados Unidos, quem tomou as duas doses da vacina já pode andar sem máscara e abraçar parentes e amigos. Na Grã-Bretanha, o futebol voltou a receber torcedores nos estádios, os pubs reabriram. Shows começam a ser reagendados, teatros começam a funcionar em vários países da Europa. (Para refrescar a memória: o primeiro-ministro britânico, o conservador Boris Johnson, negava o peso da pandemia, mas viu a aceleração do aumento de contágios e de mortes, percebeu que o serviço de saúde poderia entrar em colapso e mudou a estratégia.)
Por aqui, um ano e três meses depois da chegada do vírus, nos empenhamos para ver uma luz tênue, frágil, débil, vulnerável. Uma luz ocultada por obscurantismo, incivilidade, brutalidade, desumanização.
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O militar frouxo e pateta, o cardiologista dissimulado, o chanceler desvairado, o assessor de comunicação inábil, eles têm em comum tentar justificar o injustificável, defender o indefensável. (Nada a declarar sobre a Capitã Cloroquina.) No fim das contas, são o que são: omissos, sabotadores, negligentes, irresponsáveis, incompetentes, homens que ajudaram o brasil a se tornar um trágico e macabro cemitério.
Pra refletir
De Abraham Lincoln, presidente americano de 1861 a 1865:
Nenhum mentiroso tem uma memória suficientemente boa para ser um mentiroso de êxito
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Do poeta britânico William Blake:
Uma verdade que é dita com má intenção derrota todas as mentiras que possamos inventar
Do escritor americano Colson Whitehead:
Um escritor disse certa vez: ‘Você pode até deixar uma crítica ruim estragar seu café da manhã, mas nunca seu almoço’. Você tem que seguir em frente, senão não conseguirá fazer seu trabalho
Do escritor argentino Pablo Katchadjian, em “A Liberdade Total”:
A liberdade em si não existe, mas pode existir enquanto sensação, e assim acaba existindo