O governo federal anunciou, dias atrás, o novo secretário especial de Cultura. O nome causou estranheza. É o mesmo burocrata que, em setembro, ofendeu com palavras grosseiras o patrimônio cultural chamado Fernanda Montenegro. Muita gente comemorou a escolha. Outros consideram uma provocação. Faz parte do jogo democrático.

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Olavo de Carvalho, o pensador seguido pela família do presidente Jair Bolsonaro, disse recentemente: “Quando se trata de Brasil, quando ouço falar em cultura, eu saco meu rolo de papel higiênico”. É preciso respeitar uma opinião, mesmo que ela seja pequena, simplista, reducionista.

Destruir a cultura, deformar a educação e transformar artistas e intelectuais em bandidos não vão levar o Brasil a ser um país melhor, mais rico, mais justo. Cultura é sinônimo de liberdade de expressão. E liberdade de expressão fortalece os regimes democráticos.

Embora fazer cultura esteja eternamente associado à ideia de ruptura e transgressão, sempre tivemos intelectuais conservadores brilhantes e respeitados. José Guilherme Merquior, Roberto Campos e Paulo Francis são bons exemplos do sonho do “conservadorismo esclarecido”.

No campo popular, o hoje conservador Roberto Carlos fez parte da Jovem Guarda – movimento que mudou costumes no século 20. O Rei continua amado por esquerdistas, direitistas, centristas, bolsonaristas, petistas, tucanos, cristãos, evangélicos, budistas, judeus, agnósticos, ateus, gays, héteros, assexuados…

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Se fica sob o guarda-chuva do Ministério da Educação ou do Turismo, isso é o que menos interessa. Importa, sim, o projeto. A ideia é arruinar ou valorizar a cultura?

Um ministério que assuma verdadeiramente a cultura, tenha ele o nome que tiver, deverá ser sempre voltado à evolução do homem e ao exercício da cidadania”, escreveu a socióloga de cultura Ana Paula Souza.

Os tempos são de polarização, radicalismo e ódio. Ouve-se pouco, berra-se muito. A vontade de entender e aprender é zero. Sigo com as velhas frases dos Titãs tatuadas em minha alma: “A gente não quer só comida/A gente quer comida/Diversão e arte”.

Frases que ilustram a coluna:

Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva.” Albert Camus, escritor franco-argelino

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A cultura não se herda, conquista-se.” André Malraux, escritor francês

Por cultura entendo a mais intensa vida interior, a de mais batalha, a de mais inquietação, a de mais ânsia.” Miguel Unamuno, escritor espanhol

É preciso erguer o povo à altura da cultura, e não rebaixar a cultura ao nível do povo.” Simone de Beauvoir, escritora francesa

Não se honra a cultura comemorando genocídio!Martin Luther King, ativista político americano

"Rap e Poesia… Arte e movimento… Inspiração, de repente, de momento. Nossa cultura é rica e sem igual, Já dei o meu recado, ponto final!Emicida, músico brasileiro

"Cultura é uma necessidade imprescindível de toda uma vida, é uma dimensão constitutiva da existência humana, como as mãos são um atributo do homem.” José Ortega y Gasset, ensaísta e jornalista espanhol

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A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura.” Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana

Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote.“ Fernanda Montenegro, atriz.