Estava pronto para escrever sobre este brasil (com b minúsculo, como diz o músico Emicida), este país que não faz por merecer respeito. Este brasil onde se banaliza a vida, onde uma inocente menina de 10 anos é chamada de assassina pela interrupção legal de uma gravidez provocada por violência sexual, onde se comemoram e debocham das 110 mil mortes causadas pela Covid-19, onde a bárbarie, a cólera, a desesperança, os linchamentos e a desumanização são valorizados. Mas, encostado à porta de casa, encontro um pacote. Dentro, uma preciosidade: “Contra a Amazon e Outros Ensaios sobre a Humanidade dos Livros”, do espanhol Jorge Carrión (Editora Elefante). E, com o amoroso presente de Cíntia, faz-se luz em dias tenebrosos.
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Escritor e crítico cultural do “The New York Times”, Carrión é também autor de “Livrarias: uma História da Leitura e de Leitores”, que ganhará nova edição da Bazar do Tempo ainda este ano. Neste novo livro ele ataca pesadamente, mostra que a Amazon não é uma livraria, mas sim um hipermercado. É fato. Eles vendem de tudo. Devo confessar, recorro a eles eventualmente – Carrión não me perdoará.
Como afirma o autor catalão, a megaempresa de Jeff Bezos é uma poderosa ameaça ao mundo dos livreiros. Também é fato. É preciso resistir, é preciso ajudá-los a resistir. Ainda mais num país onde o governo quer destruir a cultura e acabar com a isenção de tributos para livros.
“A livraria nos oferece a recordação da compra”, escreve Carrión. “Um livro é um livro é um livro. E a leitura dos livros – atenção e júbilo – é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”
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Em tempos de pandemia, em que estou em home office há quase cinco meses, Carrión me fez voar, viajar por cidades e livrarias que amo. Parto do meu Rio de Janeiro, onde visito a Travessa, a Timbre, a Folha Seca, a Leonardo da Vinci. Fico em São Paulo para, de mãos dadas com Cíntia, visitar a Mandarina, a Vila, a Zaccara, trocar uma ideia com Ricardo no sebo Desculpe a Poeira. Vamos em frente pela América do Sul. Em Buenos Aires reverencio a beleza eterna da El Ateneo e, depois, tomo uma taça com meu amigo Miguel na Eterna Cadencia (ele continua idolatrando Diego Maradona e reclamando de Lionel Messi). Em Montevidéu, mais uma taça de vinho na Más Puro Verso. E em Santiago, passeio cultural na Librería del Centro Gabriela Mistral.
Hora de novos ares. A Europa começa pela Shakespeare & Co em Paris, depois segue para a South Kensington Books em Londres e uma parada básica na Shakespeare and Sons em Berlim. Para fechar o Velho Continente, Portugal, onde reencontro meus laços familiares (maternos e paternos) e a Lello no Porto, a Ler Devagar em Lisboa e a Livraria de Santiago, dentro de uma igreja na inesquecível Óbidos.
Por fim, Estados Unidos. A minha Nova York. Depois de perambular e cruzar suas ruas e seus bairros, horas e horas e horas na Strand, na Posman, na St. Mark’s Bookshop e na McNally Jackson, onde eram constantes os encontros com o amigo David Bowie e a lindíssima Iman. Dá tempo ainda de rever meu amigo Silva Pinto na Politics and Prose, em Washington. Pobre da cidade que não tem uma boa livraria.
Carrión escreve: “José Saramago (escritor português) disse que ser livreiro é como estar apaixonado a vida inteira. Então, ser leitor e ser viajante é como ser livreiro”. Música para os ouvidos de quem se imagina cuidando de uma pequena livraria-sebo-biblioteca no meio do mato e no frio da serra. Um lugar sossegado para ler, receber e abraçar amigos, tomar um café, comer um bolo, falar da vida, abrir um vinho, falar de livros. Um lugar para afetividade e leveza. Um lugar para viagens e sonhos.
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Frases:
Do escritor argentino Alberto Manguel:
“As grandes livrarias do mundo são pequenas”.
Do livreiro Ricardo Lombardi:
“O livro nos encontra”.
Do escritor espanhol Jorge Carrión:
“As boas livrarias são perguntas sem resposta”.