Um amigo costuma me dizer, em tom de crítica e escárnio: “Não entendo como pode gostar tanto de uma cidade em que se acorda, todos os dias, com o som de sirenes. Da polícia, de ambulância, de bombeiros”.
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A resposta está dada: gosto da vida que pulsa em Nova York.
Gosto da bagunça, da muvuca nas ruas, da confusão das calçadas, das pessoas de todos os países por todos os cantos com as várias línguas e sotaques. Gosto, sobretudo, do respeito, da civilidade e da solidariedade que sobrevivem no meio do caos da metrópole mais vibrante do mundo.
Para grande parte dos nova-iorquinos, o momento não é de extrema leveza. Eles ainda não entendem como os Estados Unidos chegaram a Trump. Mas a economia vai muito bem, estúpidos, isso é o que importa e provavelmente terão de engolir o topetudo por mais quatro anos na Casa Branca (as eleições serão em novembro de 2020).
Donald, um amigo americano, pergunta como está o Brasil. Digo que vivemos tempos estranhos e mudo de assunto. Gandhi, um amigo venezuelano, conta que aprendeu a falar português em Fortaleza. Luiz Marra, um amigo brasileiro, diz que Manhattan e Brooklyn são muito caros e não estão com nada: o barato agora é morar e passear em Queens.
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Um dos cinco distritos de Nova York, o Queens abriga comunidades de todo o mundo, tudo junto e misturado em um utópico habitat de tolerância.
Turcos, armênios, colombianos, tibetanos, peruanos, montenegrinos, portugueses, brasileiros, salvadorenhos, hondurenhos, mexicanos, croatas, sérvios, iraquianos, iranianos, afegãos, sírios. E segue o baile de democracia e generosidade.
Nova York recebe ainda mais turistas nas festas de fim de ano. Fica mais difícil de caminhar. O inferno maior é ouvir “Feliz Navidad” em qualquer loja que se entre. Nem o frio, às vezes inclemente, nem Simone, com “Então é Natal”, podem ser piores.
Como toda grande cidade, Nova York tem encantos e muitos segredos. O importante é fazer, descobrir, criar, construir a própria. Há uma Nova York para cada um de nós, com as possibilidades, contradições, maluquices, idiossincrasias. Enquanto isso, passam os carros da polícia, do hospital, dos bombeiros, com a deliciosa sinfonia de sirenes.
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Utopia americana
Ex-líder do Talking Heads, David Byrne é um dos artistas mais importantes de todo o mundo. Ele prova isso, mais uma vez, com seu show de música-balé-teatro “American Utopia”.
Tudo é espetacularmente simples: a coreografia, a iluminação, a disposição dos corpos, a mobilidade dos instrumentos. Tudo em ritmo de muito samba com a banda multicultural de Byrne, amigo de Caetano Veloso. Em 1986, Byrne foi capa da revista “Time”. Foi chamado de o “Homem da Renascença”.
Criativo, ousado, humanista, ferrenho defensor das bicicletas, ele agora nos impõe uma questão: como será a experiência de ver um show depois de toda a beleza de “American Utopia”?
Que venha 2020
Finalmente a Hercílio Luz será reaberta. A ponte da vergonha torna-se a ponte do orgulho, da esperança.
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Feliz 2020, saúde e paz.