Koudelka é uma vila silenciosa. Encravada em algum ponto do Leste europeu, amanhece naquele sábado sob o frio agradável do outono. As folhas dos plátanos cobrem o solo e os telhados das casas. Algumas pessoas começam a sair para o trabalho, como o açougueiro Kapka e a cuidadora Janda, montada na enferrujada bicicleta. Eles se cumprimentam na principal rua da aldeia. Gadocha, o professor de matemática, está de pé há muito tempo. Café à mesa, óculos de grau devido à miopia crescente, aproveita o silêncio para corrigir provas de seus alunos. Gorgon, médico respeitado e desajeitado, pede ajuda à mulher para vestir o jaleco. Dá-lhe um beijo morno, abre a porta e se despede. Na casa do bom alfaiate Oblak, ele, a mulher e as três filhas dormem.
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Na quietude da manhã ninguém percebe uma figura fantasmal. Em sua curta caminhada para o acanhado hospital, Gorgon passa pelo estranho, o cumprimenta displicentemente com a cabeça. Não recebe resposta. Paletó puído, cabelos desalinhados, o forasteiro caminha lentamente. Vai entrar numa casa, escolhe a que lhe parece mais serena. A casa de Oblak.
O portão está destrancado. Avança sem solenidade, sequer olha para trás. O jardim, flores, uma pequena horta, o balanço. Sente falta da infância. Na varanda, cadeiras surradas, rede esticada, três garrafas de cerveja vazias. Sente saudade dos pais.
Os movimentos parecem calculados, não se permite dispersão. Caminha pelos cômodos simples, há tecidos por todas as partes. Cozinha, sala, o corredor de paredes geladas, sem quadros e fotografias. Bonecas esparramadas pelo chão, cuida para não tropeçar. Ouve um ronco estrepitoso, é Oblak no quarto de porta entreaberta. Pega a faca guardada no bolso esquerdo do paletó. Cinco mortos.
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Koudelka congela sob o delicado sol outonal. A notícia corre velozmente. Todos se apressam para ver o trágico destino dos Oblak e o rosto do assassino, que se entregou à milícia da vila sem resistência. Ele está algemado, exposto no meio da rua. Não tem bagagem, documentos, nome. Carrega o semblante nebuloso, a tristeza pesada. Nada fala.
– Qual a motivação de tanto ódio? – indaga Gorgon, o médico da família Oblak.
– Isso só pode ser resquício das crueldades da guerra – responde Kapka.
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O estrangeiro não demonstra temor, sequer arrependimento. Move os lábios com delicadeza, parece pedir um fim para as memórias e os fardos que o envergonham. Janda se aproxima. Ela perdeu um filho na guerra, poderia ter a mesma idade do assassino. Por quê?, ela pergunta, os cansados olhos verdes pregados nos olhos negros do rapaz. Ele fala pela primeira vez, frases desencontradas e atormentadas:
– Vivo a vida a fugir. Não há calor na luz do sol. Tenho vontade de me dar um tiro. Me deixem dormir.
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Janda chora. Gadocha abraça a velha amiga. O professor de matemática arruma os óculos sobre o nariz e sugere que o Conselho de Anciões se reúna imediatamente. Não há tempo a perder, ele diz. São dez pessoas e o forasteiro, todos na sala da casa onde o crime ocorreu. Janda é a única mulher do grupo. Milicianos se movimentam pelos quartos. Do lado de fora, crianças e jovens se amontoam entre o choque e a curiosidade.
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O que fazer?, abre as discussões o imperturbável Gadocha. Enforcamento, fuzilamento? O que devemos fazer? Todos falam ao mesmo tempo. A atmosfera inquietante faz lembrar os horrores da guerra, os amigos arrancados com violência da aldeia por russos ou alemães. O forte cheiro de sangue deixa Janda enjoada. Kapka, o açogueiro, examina a faca usada pelo assassino. Os cortes foram precisos e letais. Gorgon sugere que a justiça seja feita com um tiro na nuca. Depois do burburinho frenético, todos concordam, tudo muito rápido. Janda surpreende: “Eu serei o carrasco”. Como milagre, o silêncio se apropria do ambiente.
Janda está acostumada com a finitude. É ela a responsável por encurtar o sofrimento dos idosos desenganados, um anjo da morte do bem. Na saída da casa dos Oblak para a floresta ao lado, com as belas árvores de bases curvas como testemunhas, ela se aproxima mais uma vez do rapaz e faz a mesma pergunta: Por quê? Olhando para o céu carrancudo de fim de tarde, que anuncia a chegada da chuva, ele apenas responde:
– Me faça dormir.
Apenas um tiro.
Koudelka já foi uma vila silenciosa.
Pra refletir
Do fotógrafo Tcheco Josef Koudelka:
“Nunca permaneço mais de três meses num país. Estou interessado em ver, e se permaneço muito tempo me transformo num cego”
“Uma boa fotografia é uma imagem que, quando vemos, não podemos esquecer”
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“Se uma foto é boa, ela conta muitas histórias diferentes”
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