Viver a vida de turista é sinônimo de entrar em roubadas. Sem perrengues, viagens perdem a graça. Comer mal, visitar lugares toscos, cair em golpes, embarcar em excursões grotescas, sofrer em aeroportos e aviões, brigar com parceiros, errar caminhos, levar dura da polícia. Quem nunca?
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Já caí em centenas de armadilhas — uma delas na semana retrasada. Tenho paixão por livrarias. Basta passar por qualquer uma, em qualquer lugar do mundo, sinto o irresistível desejo de entrar. Finalmente tive a chance de conhecer a “imperdível” Lello, em Portugal. Experiência inesquecível, desde a chegada até a saída.
Turistas de todo o mundo vão ao Porto visitar a Lello. Formam-se filas organizadas em blocos de 15 em 15 minutos. Cada um paga a fortuna de 8 euros (mais de R$ 50) pela entrada. Lá dentro mal se respira, é quase impossível tirar uma foto sem pessoas posando em quadro. Ficar atento a possíveis batedores de carteira é regra. O pandemônio num templo sagrado.
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A Lello consagrou-se como uma das livrarias mais bonitas do mundo. E é mesmo. Fica no centro histórico da cidade do Porto e preserva a beleza original de sua construção: fachada neogótica, a escadaria vermelha, o vitral, belas estantes com livros de diferentes épocas e idiomas.
J. K. Rowling morou no Porto e costumava frequentar a livraria, que serviu de inspiração para a escritora britânica criar ambientes para “Harry Potter”. Fãs interplanetários invadem, diariamente, a Lello para visitar cenários que lembram as escadarias de Hogwarts e a livraria Floreios & Borrões.
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Conseguem imaginar a loucura? Como admirar com tranquilidade toda aquela maravilha? Queria correr dali, tomar uma taça de vinho, respirar, mirar o céu. Na tentativa de fuga, esbarrei num livro que há muito desejava encontrar: “Gente Independente”, do islandês Halldór Laxness, ganhador do Nobel de Literatura em 1955. Que surpresa, o sofrimento se ameniza, o rebuliço se faz paraíso — e tudo passa a ter sentido.
Outras belas livrarias pelo mundo sofrem o mesmo processo da invasão turística, como o El Ateneo, um ex-teatro em Buenos Aires; e a italiana Acqua Alta, de Veneza. A histórica Shakesperare & Co., em Paris, com seus corredores estreitos e o cheiro de mofo, também.
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Aberta por Sylvia Beach em 1919, ela se transformou num ponto de encontro para escritores como Ezra Pound, Hemingway e James Joyce. Fechou as portas em 1941, devido à ocupação nazista da França. Em 1951, George Whitman abriu uma livraria com o nome de Le Mistral. Em 1964, ele deu novo nome ao estabelecimento: Shakespeare & Co. – homenagem à original de Sylvia Beach.
A poucos minutos da Catedral de Notre-Dame, longas filas se formam desde muito cedo, sob sol inclemente, chuva incessante ou frio impiedoso. Filmes como “Antes do Pôr-do-Sol”, “Julie & Julia” e “Meia Noite em Paris”, por exemplo, ajudaram a torná-la ainda mais popular. Entrar na Shakespeare & Co. hoje é coisa para guerreiro — não é definitivamente meu caso, ranzinza e impaciente que sou.
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Pelos cantos do planeta, sigo preferindo as pequenas lojas do ramo, como a Eterna Cadencia e a Falena, tesouros escondidos em Buenos Aires; a Ler Devagar, em Lisboa; a McNally Jackson, em Nova York. Nelas encontro a paz e o conforto que busco incansavelmente.
Uma coisa é certa: cada viagem é como a água do rio. Cada viagem é irrepetível. Por isso elas valem a pena, mesmo com os sustos, dissabores, chatices, furadas e contratempos. Viajar é sempre preciso.
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A reversão de expectativa
O Botafogo é a mais completa tradução da reversão da expectativa. Normalmente somos torcedores tranquilos, resignados, acomodados até. De repente, na estrada dos louros, um facho de luz, acreditamos que somos os melhores do mundo, que vamos ganhar tudo, nos tornamos otimistas descontrolados. E aí tudo sai pelo avesso.
PS1: Escrevo esta coluna antes da final da Libertadores, em Buenos Aires, neste sábado (30).
PS2: Voltaremos a falar sobre o tema na próxima semana.
Mais um golpe nos golpistas
De acordo com o extenso relatório da Polícia Federal, o ex-presidente “planejou, atuou e teve domínio” do plano de golpe de Estado. Foi o próprio ex-presidente quem teria apresentado a minuta do golpe aos comandantes da Forças Armadas, segundo a PF.
Triste pensar que poderíamos estar vivendo, hoje, sob mais uma ditadura, chefiada pelo ex-presidente e seus asseclas militares e civis.
Sobreposição
De Lídia Jorge, escritora portuguesa, no belíssimo livro “Misericórdia”
1. “Cada uma das nossas vidas pode conter mil, dois mil anos de vida somando o conto das vidas dos outros que passam por nós sem parar”.
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2. ”A minha vida é feita da sobreposição das vidas que passam por mim, e a minha pessoa é apenas a soma de todas elas”
3. ”Há duas espécies de folhas que me compõem, aquelas que eu admiro pela grandeza e aquelas de que tenho pena pela miséria”