Desperto, espreguiço, alongo ainda na cama. Lá fora a algazarra dos pássaros e sua cantoria. Sorrio. Abro a janela, o ar fresco e confortável do outono bate no rosto, o céu de um azul límpido. Que linda é a vida, penso em silêncio. Escovo os dentes e me sinto num bonito e asséptico comercial de televisão.
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Da cozinha vem o aroma gostoso do café. De onde será, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais? Seu perfume toma toda a casa. Antes, um suco de laranja. Resisto, não ligo a TV, nem vou à porta buscar os jornais, eles publicam somente notícias ruins e efemérides. Não me interessa essa imprensa negacionista e marrom. Abro o toca-discos, vasculho a coleção de LPs, escolho um velho Roberto Carlos. “Mandei meu Cadillac pro mecânico outro dia/ Pois há muito tempo um conserto ele pedia/E como vou viver sem um carango pra correr?/Meu Cadillac, bi-bi/Quero consertar meu Cadillac”.
A manhã passa serena. Tatuadas na memória, lembranças dos tempos de menino. As pipas que bailavam pelo ar, o futebol no paralelepípedo e os dedos quebrados, bola de gude, jogar pião, as inocentes paqueras, sonhar com o ouro ao fim do arco-íris, a malhação dos judas.
Agora sinto o cheiro dos bolinhos de carne que a mãe fazia. Também escuto o noticiário esportivo no radinho de pilha Telefunken do pai, enquanto as irmãs mergulham em seus deveres escolares.
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O dia segue a toada no ritmo de Clara Nunes. “O mar serenou quando ela pisou na areia/Quem samba na beira do mar é sereia…” Lá fora algumas pessoas estão se vacinando. Outras, morrendo. Todos teremos que morrer um dia, não é verdade? De uma gripezinha, um resfriadinho, uma doença qualquer. Tanto faz, quem se importa? Estamos até prontos para sediar um torneio internacional de futebol e provar ao mundo que tudo vai maravilhosamente bem no nosso Brasil varonil.
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A noite chega. O céu se torna cinzento, o frio outonal congela o sorriso. Hora de aproveitar coisas que os novos tempos permitem. Uma boa série (leve e descompromissada), um filminho antigo (nada de guerra e coisas de política), uma novela reprisada (sem esses temas modernosos de hoje em dia). A sopinha de aspargos, a tacinha de Merlot, quatro ou cinco páginas de Jorge ou Clarice ou Cecília. O sono aos poucos vai me abatendo. Mais um dia se passou, assim, como um estalar de dedos, como se o mundo lá fora tivesse simplesmente parado.
Como é bom sentir que a ignorância é uma bênção. Deus, como pode ser boa a vida.
Pra refletir:
Do ator e cineasta inglês Carhlie Chaplin:
Você nunca achará o arco-íris se você estiver olhando para baixo.
Do ator e compositor brasileiro Mário Lago:
Quando deixarmos de ter esperança é melhor apagar o arco-íris.
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Do poeta brasileiro Caio Fernando Abreu:
Se amanhã o que eu sonhei não for bem aquilo, eu tiro um arco-íris da cartola. E refaço. Colo. Pinto e bordo.
Da escitora britânica Virginia Woolf:
Tudo é efêmero como o arco-íris.
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