
Giramos, giramos, e voltamos ao mesmo lugar. O cachorro atrás de seu próprio rabo. Em recente artigo, a jornalista Cláudia Collucci, especializada na área de saúde, escreveu: “Se você não consegue ser empático com a dor do outro, não se comove com os mortos da Covid-19, a sua doença é muito pior. Procure ajuda psiquiátrica”.
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Talvez um dia, num futuro qualquer, esta doença passará – após deixar milhares de mortos e o caos social e econômico despejados pelo caminho. Mas uma coisa é certa: a pandemia de idiotas seguirá firme.
Ela seguirá disseminando desinformação e notícias falsas e defendendo o terraplanismo. Continuará negando o desmatamento da Amazônia e as mudanças climáticas em toda a Terra. Progredirá na defesa do fim das instituições democráticas e da volta da ditadura. Insistirá que vivemos apenas uma “gripezinha” e fechará as entradas de hospitais lotados de vítimas do coronavírus.
Dentro da pandemia de idiotas estão também os “supremacistas sociais” – definição de David Nemer, professor de Estudos da Mídia na Universidade de Virginia (EUA). Este grupo adora compartilhar teses pró-armas, racistas, homofóbicas, misóginas, xenófobas. E segue o baile dos farrapos.
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Cuidado, a pandemia de idiotas pode estar agora, ameaçadoramente, perto de você, no seu prédio, reclamando da volta para casa de médicos e enfermeiros que estão na linha de frente contra a Covid-19 e não veem os filhos há semanas. Ela pode também estar em algum apartamento enorme com decoração jeca, cheio de “influenciadores” numa festinha bombada, lançando à maciça turma em quarentena uma banana e um sonoro “dane-se a vida”.
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Ao chegar ao Brasil, o coronavírus trouxe o medo e, também, a vaporosa discussão sobre o bem e o mal. Bonitos exemplos de solidariedade aos doentes e de agradecimento aos profissionais de saúde são revelados diariamente.
Péssimos exemplos de desrespeito, ignorância, egoísmo e obscurantismo, da mesma forma. Sair maior disso tudo, como ser humano e pedaço importante da sociedade, depende apenas de nós. A responsabilidade continua nas mãos de cada um. Basta manter os cuidados e a razão, acreditar na ciência, ter empatia com todos os que sofrem com a doença e a crise econômica. E seguir combatendo, incansavelmente, as pandemias da Covid-19 e dos idiotas.
A desumanização
> Em todo o mundo, líderes aparecem consternados. Aqui, ao saber que o Brasil ultrapassou as 5 mil mortes, o presidente dá de ombros: “E daí?” É o que nos resta.
Estrangeiro, sempre
O escritor italiano Italo Calvino um dia definiu um clássico assim: “É um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha o que dizer”. É o que sinto todas as vezes que abro “O estrangeiro”, do francês Albert Camus, companheiro inseparável das duras horas de isolamento social.
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Calma, vai passar
Do escritor português Valter Hugo Mãe: “A ingenuidade e a estupidez levam muitos a veicular ódio e discriminação. Se nos mantivermos calmos, teremos capacidade para apostar em quem confiar. Acima de tudo, nunca confiar em quem trata o povo como imbecil e elogia ditadores, torturadores e criminosos de toda espécie”.
Humano ou besta?
Do filósofo Luiz Felipe Pondé: “O risco está posto. A diferença é quem consegue sobreviver a ele e permanecer ser humano, agir de forma humana ou quem vira uma besta”.