Numa manhã deste belo verão ouvi a discussão na padaria. Lá dentro, o telefone tocava incessantemente, lembrando a abertura de “Era Uma Vez na América”. No balcão, o jovem à beira dos 60 anos, entusiasmado, dizia ao adolescente na casa dos 20: “Como você quer que eu não seja saudosista? Sou do tempo de Pelé, Rivellino, Gérson, Cruyff, Maradona, Beckenbauer, Platini, Baresi, Tom Jobim, Elis Regina, Burt Bacharach, Frank Sinatra, Vinícius de Moraes, Tarcísio Meira, Eva Wilma, Paulo Autran, Fernanda Montenegro…”. Para quebrar o silêncio ensurdecedor, ele seguia a ladainha com a lista de nomes, e perguntou novamente, com o rosto enrubescido: “E você cobra que eu não seja saudosista? Você acha que o mundo começou ontem?”.
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Também sou um jovem sessentão. Mesmo querendo distância do saudosismo, concordo em tudo com o colega acima. (Todo este preâmbulo é apenas para dizer que meu editor encomendou, esta semana, uma coluna sobre futebol. Lá vai.)
Aprendi a conhecer o futebol acompanhando a carreira e a vida dos craques. Primeiro, moleque curioso, através da revista “Placar” e visitas incansáveis às bancas de jornais. Anos depois, dentro dos estádios – principalmente no Maracanã, onde pude ver os quadros de arte de Zico, Roberto Dinamite, Falcão, Mário Sérgio, Ademir da Guia, Rivellino, Paulo César Caju, Marinho Chagas, Júnior, Hugo de León, Leandro, Maradona, Beckenbauer. Mais tarde, graças aos fazeres profissionais, indo a Copas, quando pude ver mestres como Zidane, Messi, Cristiano Ronaldo, Ronaldo, Ronaldinho, Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo.
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“Ter saudade é melhor do que caminhar vazio”, escreveu Peninha (o compositor, não o historiador gremista). “Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno”, arremata o poeta Charles Baudelaire. Saltamos no espaço, viajamos para o hoje. O que temos, o que vemos? Um futebol que parou no tempo, que beira o risível, tão miserável que faz a saudade bater forte na alma. Como gosta de dizer o pessoal moderno de coach e RH, não faltam indicativos:
1) Nosso mais talentoso jogador parece um ex-atleta em ação. Cada vez joga menos (em qualidade e em quantidade), cada vez organiza mais festas com os parceiros. Irresponsável, alienado, mimado, antipático prepotente e rico, tornou-se uma caricatura do craque que poderia ter sido.
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2) A Seleção Brasileira foi um fiasco nas últimas cinco Copas. Perder faz parte do jogo. Perder bonito, como aconteceu em 1982, nos fez entrar para a história. Mais do que partidas e copas, perdemos a essência, a identidade, a natureza, o estilo. Não sabemos o que somos, não nos reconhecemos, não somos respeitados. Nos tornamos pequenos. (Sem falar na mediocridade dos clubes: vejam o papelão do poderoso Flamengo no recente Mundial do Marrocos.)
3) A seleção pentacampeã está sem técnico desde o fim da Copa do Catar. Estamos, desesperadamente, em busca de um treinador estrangeiro para tentar cobrir o abismo criado pela incompetência e pela falta de ideias dos nossos “professores”. São (quase todos) esquemáticos, retranqueiros, medrosos, caretas, protegidos por jornalistas esportivos bajuladores. Um retrato da extrema pobreza é a ausência de técnicos brasileiros em grandes times do exterior. Não temos, simples assim.
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Dito tudo isso, me agarro ao supercraque das letrinhas Mário Quintana: “A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo”. Ah, Pelé, Rivellino, Gérson, Cruyff, Maradona, Beckenbauer, Platini, Baresi, Tom Jobim, Elis Regina, Burt Bacharach, Frank Sinatra, Vinícius de Moraes, Tarcísio Meira, Eva Wilma, Paulo Autran, Fernanda Montenegro… Quanta saudade de vocês.
Pra refletir:
“A saudade é o que faz as coisas pararem no tempo”
Mário Quintana, poeta
“Ter saudade é melhor do que caminhar vazio”
Peninha, músico e compositor
“Aos olhos da saudade, como o mundo é pequeno”
Charles Baudelaire, poeta
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