Desde moleque nunca fui afeito a festas natalinas. Me escondia, me isolava pelos cantos da casa. Optava por distância daquela algazarra, das acaloradas discussões entre parentes. Na hora da ceia, a mesa era tomada pelo aroma da bacalhoada que somente Dona Leila sabe fazer, com os segredos que apenas agora, aos 80 anos, se permite revelar. Aí eu reaparecia — para abastecer a pança juvenil, abrir os presentes e, depois, ouvir muita música.

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Naqueles tempos, quando a maciça maioria das famílias tinha um negócio chamado vitrola, os principais cantores do país costumavam lançar novos discos nas festas de fim de ano. As gravadoras aproveitavam o Natal para ganhar dinheiro. Tim Maia e Roberto Carlos, por exemplo, vendiam como água. Ouvi-los me fez gostar de música para sempre.

A separação de meus pais, já na adolescência, me levou ainda mais para longe do Natal. Até que surgiria um namorado de minha mãe. Introspectivo, meditativo, mudava seu jeito somente nas festas de dezembro. Depois de algumas doses de uísque, ele ouvia o Rei Roberto Carlos e filosofava entre abundantes lágrimas: “A vida é uma coisa impressionante”. Aquilo nos divertia e nos devolvia à infância por algumas horas.

“A vida é uma coisa impressionante” tornou-se um lema, um slogan que tudo diz e nada diz em toda amplitude antropológica, filosófica, metafísica, sociológica, política e afins. Até hoje, quando penso nos caminhos por onde andei, nos amigos conquistados e nos que se foram, nas pequenas vitórias e derrotas do ordinário cotidiano, não consigo perceber sentido em muita coisa.

Aquele menino, que desejava ser jogador de futebol (mas era muito desengonçado e perna de pau) e também ser jornaleiro (para ler todas as histórias em quadrinhos dentro de uma banca de jornais e revistas), embarafustou-se e perdeu-se por outros rumos. Rumos que remetem ao belo poema “The road not taken”, do americano Robert Frost: “Pois duas trilhas em um bosque divergiram, e eu,/Eu tomei aquela que menos percorreram,/E isso fez toda a diferença”.

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Pois bimbalham os sinos. Está chegando mais um Natal. Tempos de vagas reflexões, fluidas promessas, vacilantes demonstrações de humanismo. Tempos que provam como a vida é uma coisa impressionante — em todo seu infortúnio, em toda sua beleza.

Orgulho e preconceito

Do governador da Bahia, Rui Costa, equilibrado e crítico, em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”: 

"Antes, as pessoas tinham vergonha de manifestar preconceito. Agora, parece que têm orgulho".

Mentiras e verdades

Do escritor britânico George Orwell, o melhor cronista da cultura inglesa do século 20, nada mais atual: 

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"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário".

E do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, em tempos de banalização e normatização da cascata:

"O avesso da mentira nem sempre é a verdade, mas outra mentira".

Feliz Navidad

A segunda parte da trilogia “O lugar mais sombrio”, do escritor amazonense Milton Hatoum, já está nas boas casas do ramo. Em 2017, começou com “A noite a espera”. A continuação vem agora, com “Pontos de fuga”. Hatoum é um dos melhores escritores do Brasil. Boa leitura.

E Feliz Natal!

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