vida
(Foto: Divulgação)

Cheguei aos 59 anos dia 17 de março. Um aniversário esquisitão. Os abraços, apertos de mãos e beijinhos foram substituídos por perigosos toques de cotovelos. De minha namorada e de minha família vieram o amor e carinhos em palavras bonitas, por telefone ou vídeo. Era uma terça-feira, naquela semana o bicho começava a ficar feio em Santa Catarina. Não fiquei triste com a falta da festa ou do bolo para cortar. Para bom entendedor pingo é letra.

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Já fui a muitas festas nesses anos todos. Meus pais adoravam organizar um evento em nossa infância. Os aniversários, meu e de minhas irmãs, duravam um fim de semana inteiro. Feijoada, cajuzinho, muita brincadeira para a criançada, uma envergonhada canja minha ao piano com o primo Abel (ex-jogador, hoje técnico de futebol). Eram momentos mágicos.

Mais tarde, na adolescência e na universidade, corria bairros do Rio em busca de uma boa farra. Tímido, magricelo e mal humorado, nas pistas de dança mostrava a mesma malemolência de um bonecão de Olinda. Com a soma desses fatores, não era nada fácil conquistar o coração de uma moça.

Já mais adulto bateu a preguiça. Para me tirar de casa uma festa tem que ser a festa. Fiquei mais chato. A quantidade diminuiu, a qualidade aumentou. Posso dizer que já dancei com Vera Fischer e Patrícia Pillar em noites diferentes. Em outra festa passei a noite ao sofá conversando com Lúcia e Luis Fernando Verissimo. Em mais outra, travei longo papo com o monstro da fotografia Sebastião Salgado. Tudo no currículo, ninguém tira.

Agora não é hora de festejar. Mas alguns fazem festas em cidades catarinenses – o que é ilegal por decreto estadual. São jecas posando de influenciadores. São influenciadores do mal, que não podem controlar a idiotia e esperar a pandemia ir embora. Não conseguem ser solidários com as famílias que perdem pais, filhos, filhas, maridos, esposas, irmãos, avôs, avós. O Brasil em breve chegará a 10 mil vítimas da Covid-19 – muitas das quais enterradas em covas rasas, como vemos na televisão. Especialistas afirmam que Santa Catarina pode ser o próximo epicentro da doença. Pensar em festa agora é acintoso e imoral. Ir à festa agora é triste e deplorável.

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Do meu lado, faltam dez meses e alguns quebrados para os meus 60 anos. Sonho estar ao lado de Cíntia, reunir a família e os amigos, ganhar presentes, abraçar todo o mundo, agradecer por estar vivo. Tudo isso vai passar. É como escreveu o poeta americano Robert Frost: “Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua”.

A influência do bem

Os verdadeiros influenciadores, meus caros, são os médicos e os enfermeiros que fazem um trabalho heróico em Santa Catarina, no Brasil e no mundo. Influenciam nossas vidas com coragem, destemor, bondade e amor. O resto é o resto.

Do comediante britânico Ricky Gervais:

“Sempre temos bebida suficiente em casa até para um inverno nuclear. Não vou reclamar. Não quando, a cada dia, vejo alguma celebridade milionária se queixando de estar triste por não estar na TV naquela noite. Ou dizendo que estava triste, mas nadou na piscina e melhorou um pouco”.

Do comediante americano Jerry Seinfeld:

“Estamos todos cansados de ver as casas das pessoas. Elas são todas deprimentemente normais. E, quanto melhor for a pessoa, mais mal cuidada vai parecer a casa. Porque a pessoa vive ocupada demais para cuidar disso. As únicas pessoas que têm casas verdadeiramente fabulosas são horríveis naquilo que fazem”.

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Do paleoantropólogo espanhol Juan Luis Arsuaga:

“Sempre digo que a vida não pode ser trabalhar a semana inteira e ir ao supermercado no sábado. Essa vida não é humana. Deve haver algo mais nessa vida. E essa outra coisa se chama cultura. É a música, a poesia, a natureza, a beleza…”.