A memória me remeteu, esta semana, a um antigo reclame televisivo da década de 70 do século passado. No aparelho em preto e branco, a voz sorumbática do narrador dizia, sobre algum produto mequetrefe daqueles anos de chumbo: “Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Já desgastada e empalidecida, a memória recuou no tempo e no espaço graças a uma história do futebol inglês.
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Dia desses o londrino Tottenham viajou para enfrentar o Newcastle. Levou de 6 a 1. Envergonhados, os jogadores do Tottenham escreveram aos torcedores:
“Como time, entendemos sua frustração, sua raiva. Sabemos que palavras não bastam em situações como essa, mas acredite, uma derrota como essa dói. Agradecemos o seu apoio e, com isso em mente, gostaríamos de reembolsar os torcedores com o custo de seus ingressos no St James’ Park (estádio do Newcastle). Sabemos que isso não muda o que aconteceu e daremos tudo para consertar as coisas”.
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Esta mensagem, de dramaticidade patética, me fez lembrar 2014. Copa do Mundo do Brasil. A Alemanha faz 7 a 1 em nossa seleção. Ao fim, às lágrimas, sentindo-se desonrados, rebaixados, desorientados e humilhados, nossos atletas pediam desculpas aos torcedores. De minha humilde sala, olhava aquilo e pensava: “Que coisa estranha, isso é apenas um jogo de futebol. Simplesmente nada além de um jogo de futebol. Um dia se ganha, outro dia se perde. Há coisas mais importantes para se sentir vergonha na vida”.
“A Vergonha” é o título de um livro de Annie Ernaux. Vencedora do Nobel de Literatura do ano passado, a escritora francesa faz autoficção (gênero que mistura a autobiografia e a ficção). Ela usa a própria vida para nos contar, brilhantemente, histórias de paixão, dor, amor, ódio, esperança, desespero, alegrias, sofrimentos, encontros e desencontros.
Escrito em 1997, este livro começa num dia de verão de 1952 – exatamente o dia em que o pai tentou matar a mãe dela. Essa visão tenebrosa concentra toda a vergonha que ela sente até os dias de hoje (Ernaux nasceu em 1940). “A vergonha se tornou, para mim, um modo de vida. No fim das contas, já nem percebia sua presença, ela estava em meu próprio corpo”, ela escreveu.
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Também sinto vergonha – ou algumas vergonhas me assombram. Talvez os motivos sejam considerados ridículos num país onde a incivilidade, a brutalidade, o desânimo, a insensibilidade, a falta de solidariedade e a ausência de humanismo imperam.
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Sinto vergonha, sim, quando vejo políticos inescrupulosos chegarem ao poder e esquecerem das promessas e compromissos com o povo. Sinto vergonha, sim, quando vejo barracas lotadas de gente desesperançada sob viadutos e marquises de todas as cidades por onde passo. Sinto vergonha, sim, quando vejo pais e mães pedindo dinheiro ou restos de comida nos sinais de trânsito. Sinto vergonha, sim, quando vejo crianças passando fome debaixo do sol inclemente ou da chuva implacável.
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Vergonha é como opinião – cada um tem e sente e carrega as suas nas costas. O que eu sou para julgar as vergonhas alheias? Prefiro caminhar e ficar com Anton Tchekhov, mestre da literatura russa, que um dia escreveu: “Uma pessoa boa sente vergonha até diante de um cão”.
Pra refletir:
“Não existe fracasso no esporte. Existem dias bons e dias ruins. Em alguns dias você terá sucesso, em outros, não. Em alguns dias será a sua vez, em outras vezes, não. É disso que os esportes são feitos. Você não ganha sempre. Algumas vezes, as outras pessoas vencem. É simples assim”.
Giannis Antetokounmpo, jogador de basquete grego
“Acho que nós, jornalistas, nos beneficiaríamos ao ouvir mais o público e não discursar tanto para ele, em tom de quem sabe tudo. Deveríamos ficar mais impressionados com o que não sabemos que com o que sabemos ou pensamos saber. O jornalismo se beneficiaria se tivesse mais humildade e menos arrogância”.
Martin Baron, ex-editor executivo do jornal “Washington Post”Continua depois da publicidade
“A arte, um dos grandes valores da vida, deve ensinar aos homens: humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”.
W. Somerset Maugham, escritor britânico
“Toda regra tem exceção. E se toda regra tem exceção, então, esta regra também tem exceção e deve haver, perdida por aí, uma regra absolutamente sem exceção”
Millôr Fernandes, humorista
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