Dia desses revi “A Caça”, do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. No filme, de 2012, um professor de jardim da infância é muito querido na pacata cidade onde vive. Tudo muda quando uma criança de 8 anos, filha de seu melhor amigo, sugere ter sofrido assédio sexual. De amado o professor passa a ser “cancelado”, isolado, odiado, perseguido, atacado, espancado física e moralmente. No filme, o júri do poder paralelo da opinião pública foi implacável.
Continua depois da publicidade
O filme traz irremediavelmente à memória um caso acontecido em São Paulo. Em 1994, duas mães denunciaram que seus filhos de 4 anos haviam sofrido abuso sexual na Escola Base. O laudo final foi inconclusivo. A escola, depredada e fechada. O inquérito, arquivado por falta de provas. Os suspeitos foram inocentados pela Justiça, mas era tarde. Suas vidas estavam dizimadas. Na vida real, eles foram condenados pela impiedosa justiça do poder paralelo da opinião pública.
A cobertura da Escola Base tornou-se um dos maiores erros cometidos pela imprensa brasileira. Uma prova concreta de que negligência, imprudência, irresponsabilidade, julgamentos precipitados e sede de justiçamento, somados, nunca trarão bons resultados.
Em tempos de disseminação de notícias falsas, overdose de intolerância e campanhas de desinformação, os cuidados precisam ser ainda maiores. Pré-julgamentos e juízos de valores, preconceitos arraigados, moralismos e verdades intocáveis tornam-se armas ainda mais letais. Tudo isso nos cega, tira o frescor do estranhamento, enfraquece o maravilhoso poder da dúvida. Os tempos não estão para opiniões frágeis, certezas tolas, apurações burocráticas, crenças obcecadas. Diferentemente, os tempos são para estranhar, duvidar, perguntar, desconfiar, ouvir mais do que falar. Temos uma boca e dois ouvidos, repetiam nossos avós e avôs.
> Aprendendo a distinguir a desinformacao
Continua depois da publicidade
O filósofo grego Aristóteles disse: “O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete”. Já o cineasta americano Orson Welles reforçou: “É preciso ter dúvidas. Só os estúpidos têm uma confiança absoluta em si mesmos”. E bem mais recentemente, o jornalista Reinaldo Azevedo decretou: “Um cientista rigoroso tem dúvidas. Um idiota, nunca!”.
Enfim, esses são poderosos tempos para praticar e valorizar a dúvida.
> Em tempos difíceis, uma enxurrada de anúncios promete paz de espírito
De Ruth Bader Ginsburg, juíza da Suprema Corte americana morta em setembro:
“Uma constituição, por mais importante que seja, não significará nada, a menos que as pessoas anseiem por liberdade.”
De Joseph Brodsky, poeta russo naturalizado americano:
“Se está em dúvida, escolhe sempre o caminho mais generoso.”
Do poeta alemão Heinrich Heine:
“Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.”
Continua depois da publicidade
Do escritor português Afonso Cruz:
“A nossa morte acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é morte. O momento final é apenas isso, um momento.”
Do escritor francês Michel Houellebecq:
“Tudo pode acontecer na vida, especialmente nada.”