Diariamente converso com amigos com os quais trabalhei e vivem em Nova York. De suas casas, na quarentena, enviam fotos de ruas e avenidas vazias, relatam o deserto e o sofrimento da cidade mais importante do mundo, que recebe gente de todas as partes do planeta. Um deles mora perto de um movimentado hospital de Queens.

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Conta que, diariamente, não descansa com a sinfonia de sirenes e vê caminhões frigoríficos serem carregados com corpos, através de empilhadeiras. Ele pinta um retrato macabro.

“De minha casa ouço o silencioso choro da dor”, afirma Luiz Novaes, repórter cinematográfico da TV Globo em NYC.

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(Foto: Luiz Novaes / Arquivo Pessoal)

Até o momento em que escrevo estas linhas são 5,5 mil mortos em Nova York. Mas lá o distanciamento social continua forte. Quem for flagrado promovendo aglomeração paga multa de 7 mil dólares. E tenham certeza: paga ou depois se entende com a Justiça.

Tudo está fechado na grande metrópole: museus, teatros, restaurantes, bares, casas de jazz, quadras de esporte, escolas, parques. Estão esperando pelo pior nos próximos dez dias. A pandemia da Covid-19 segue implacável nos Estados Unidos.

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(Foto: Luiz Novaes / Arquivo Pessoal)

Cheguei para viver em Nova York pouco tempo depois do ataque ao World Trade Center. Escolhi para morar um bairro muito próximo do epicentro do maior atentado terrorista da História. O aluguel era barato, o bairro vivia vazio, poucas lojas funcionavam, havia poucos lugares para almoçar e jantar, o medo e as tristes lembranças rondavam a região.

Aos poucos pude acompanhar a mudança: o humor voltou, os investimentos cresceram, restaurantes e lojas reabriram. A vida retomou seu pulso normal – com organização, respeito às leis e à diversidade e, claro, muito dinheiro.

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(Foto: Luiz Novaes / Arquivo Pessoal)

A cidade de Nova York está sangrando. Todos os dias, internações, sofrimento, mortes. Caminhões carregados com corpos. Despedidas sem parentes. O governador do Estado, Andrew M. Cuomo, diariamente faz longos pronunciamentos e revela sua dor.

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(Foto: Luiz Novaes / Arquivo Pessoal)

Tudo passará. Porque, nessas horas, os americanos conhecem a importância da união e da organização. Republicanos e democratas esquecem o amor e o ódio por Donald Trump e abrem os cofres, tudo pelo bem comum. Foi assim depois do 11/9, também no combate à crise econômica de 2008, será assim de novo. É como diz David Remnick, diretor da revista americana ˜The New Yorker”:

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“O espetáculo de Nova York sem os nova-iorquinos é o resultado de um pacto comunitário. Nos ausentamos das escolas e dos playgrounds, das quadras de esportes e dos bares, dos locais onde trabalhamos, porque sabemos que a vida agora depende de nossa retirada da vida.”

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(Foto: Luiz Novaes / Arquivo Pessoal)

Nova York vai voltar a viver.

O relaxamento social

Diariamente falo com amigos que vivem no Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador. Quero saber se eles estão bem, estão se cuidando. Dizem que sim, mas que cada vez mais tem mais gente nas ruas. É instintivo, imediatamente corro à varanda e olho o beira-mar lotado de gente malhando, passeando, se abraçando – como se vivêssemos férias num período de luta contra um vírus incomum e poderoso.

A doença tem nome e sobrenome, disse o ministro Mandetta. Chama-se Covid-19 (há controvérsias). Mas as imagens mostram que, nas principais capitais do país, praticamos o relaxamento social. Faz sentido. O Brasil é o país onde tudo vira piada. Nada é pequeno por acaso.

Boa Páscoa.