Duas semanas atrás o país comoveu-se com uma reportagem de Drauzio Varella, sobre detentas transgênero e travestis em presídios de São Paulo. Descobriu-se dias depois que a presa abraçada pelo médico havia cometido crimes bárbaros – omitidos pela matéria exibida no Fantástico no primeiro domingo de março. A comoção virou discussão e condenação. Em vídeo, Drauzio pediu desculpas.

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“Ser médico orienta meu olhar em todas as situações, não só quando estou atendendo pacientes. Faço isso há mais de 50 anos, seja no consultório, cadeias, nos livros que escrevi, na televisão, nos jornais e na internet. Posso imaginar a dor e peço desculpas para a família do menino que foi involuntariamente envolvida no caso”, disse o doutor, que se dedica a trabalhos voluntários em penitenciárias há mais de 30 anos. Drauzio fez o que sempre faz. E o quadro dele, na televisão, sempre informa, ensina, provoca reflexões.

O juramento profissional na medicina é o do humanismo, o de salvar vidas – seja onde for, custe o que custar, corra o risco que correr. O maravilhoso trabalho dos Médicos Sem Fronteiras está aí para provar o tamanho de tanto amor ao outro. O juramento feito por nós, jornalistas, é o do compromisso pela busca da verdade, pelo pluralismo, por ouvir todos os lados de uma mesma história. Nosso principal ativo é a credibilidade, zelar por ela é preceito inegociável.

O jornalismo profissional e independente é indispensável para o fortalecimento da sociedade e dos valores da democracia. Mas, de vez em quando, comete erros inquietantes. Foi o que aconteceu em 1994, quando os proprietários de um colégio em São Paulo (a Escola Base) foram acusados, julgados e condenados, pela imprensa, de abusar sexualmente de alunos. Ali, como um tribunal paralelo, fizemos justiçamento, não o que exige o bom jornalismo. Consequências da revolta da opinião pública, a escola foi fechada e vidas, destruídas.

Foi o que também ocorreu em 2003, quando o respeitável “The New York Times” revelou ao mundo os erros, as fraudes os plágios e as invenções contidos em textos produzidos, durante cinco meses, pelo repórter Jayson Blair. Ele fingia enviar reportagens de lugares onde não estava, usava fotos para forjar detalhes que não presenciara, inventava declarações.

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Aqui, em meu modesto espaço, elogiei a reportagem e exaltei a atitude humanista de Drauzio. Me deixei levar pela emoção e baixei a guarda no cuidado pelo princípio básico deste ofício. A reportagem tratava das condições de vida das trans na prisão, mas não revelava por que ela estava detida numa ala de pequenos delitos. Suzy cometeu crimes que chocam todo o mundo – estupro e homicídio de menor de 14 anos com uso de meio cruel e impossibilidade para fuga. “Suzy, por que você está presa?” – esta pergunta poderia ter evitado que a discussão tomasse outro rumo.

A exemplo do que ele fez, também peço desculpas à família do menino assassinado pela detenta. E contra quem tenta crucificá-lo por conta de um abraço, sou solidário e reforço minha admiração pelo trabalho humanista do doutor Drauzio Varella.

Viva Cazuza

música
Cazuza (Foto: Divulgação)

Dia desses acordei com Cazuza na cabeça: “Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades/O tempo não para”.

Como tatuagem, as frases colaram em mim. Passei a manhã, a tarde e a noite cantando: “Eu mereço um lugar ao sol/Mereço ganhar pra ser/Carente profissional”.

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Se passaram as horas até que descobrisse que, no próximo dia 7 de julho, lembraremos 30 anos da despedida desse gênio da poesia e da música brasileira. “A burguesia fede/A burguesia quer ficar rica/Enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”.

O abraço e a dor

De Mônica Bergamo, colunista da “Folha de S.Paulo”: “Drauzio não apoiou crime algum, não aplaudiu a morte, não celebrou a tortura, não aplaudiu o terror. Mas pediu desculpas. Por um abraço. Porque esse abraço causou dor. Sem querer, causou dor”.

Organização e calma

Quando vemos a Itália parada e isolada por conta do coronavírus, uma poderosa pergunta me acomete: onde isso vai parar?  A Organização Mundial da Saúde diz que tudo estará bem apenas em dezembro. Temos tempo pela frente. Por ora, é preciso organização e lutar contra o alarmismo e o pânico, como vêm fazendo o Ministério da Saúde e as autoridades de Santa Catarina.

Triste fim

Pascal é um amigo de Burkina Faso. Ama futebol. Ama Ronaldinho Gaúcho. Assim como muitos brasileiros, Pascal está abalado com o triste fim do ex-craque, algemado e detido no Paraguai.

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