Não lembro bem quando senti raiva pela primeira vez. Talvez tenha sido quando minha mãe, depois de uma peraltice de moleque, destruiu todas as minhas pipas, uma a uma (ela quebrava, eu chorava). Eu tinha sete anos. Mas lembro perfeitamente quando senti a ira pela última vez: foi semana passada, quando soube da morte de um grande amigo. Ótimo jornalista, amante do carnaval e do mundo digital, incapaz de erguer a voz em qualquer discussão, Aloy Jupiara é uma das quase 400 mil vítimas da Covid-19 neste cemitério chamado brasil.

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Enquanto acompanhamos a patetice entre o presidente da República e um senador mequetrefe, pessoas morrem e passam fome. Enquanto fanáticos passam vergonha nas ruas, carregando cartazes com frases malucas, pessoas morrem e têm fome. Enquanto negacionistas continuam fazendo o óbvio – negar a ciência e os valores mais essenciais à vida –, pessoas morrem e desmaiam de fome. Enquanto seguimos a marcha lenta da vacinação, muita gente continua morrendo. O brasil transformou-se neste cemitério enorme e descontrolado que enterra, até mesmo à noite, seus filhos, filhas, netas, netos, avós, avôs, tias, tios, mães, pais, amigas, amigos, amores. O horror, o horror.

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O presidente, os governadores e os prefeitos têm, sim, culpa por essa matança. Assim como também têm responsabilidade os idiotas que fazem festinhas e aglomeram por todos os cantos do país, aproveitando-se da fragilidade dos decretos e das fiscalizações. O brasil está abandonado, desmoralizado, ridicularizado por todo o mundo. O brasil está doente.

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Um amigo sempre diz para não escrever com o fígado. “Se tem dúvida ou cólera, pense e espere”, ele acrescenta. Recentemente, o escritor amazonense Milton Hatoum disse que trabalha melhor quando está com raiva. Esta coluna, minhas caras e meus caros, foi escrita com fúria. Uma fúria de quem não suporta mais receber notícias tristes, contar mortos, nem ouvir a defesa de imbecilóides por remédios sem qualquer eficiência comprovada contra o coronavírus e suas variantes ou fazendo pregação contra a importância da vacinação. Uma fúria de quem não aguenta mais as cortinas-de-fumaça inventadas pelos governantes para tentar esconder a incompetência e a desorganização na luta contra a pandemia.

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Guimarães Rosa escreveu que a vida exige da gente coragem. Nada mais preciso. Incansavelmente, sem revelar qualquer sinal de trégua, a vida nos exige cada vez mais bravura. E como disse o americano Ernest Hemingway, coragem é uma bênção que vem sob pressão. O brasil – este país com b minúsculo de burrice, brutalidade e barbárie – exige muito mais da gente: resiliência, perseverança, paciência, garra, força, amor, resistência e, por que não?, indignação e raiva.

Para refletir

Do grande escritor Mário Quintana:

O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.

Do escritor sul-africano J.M. Coetzee:

Se vamos ser gentis, que ela não passe de uma generosidade simples, e não que seja por culpa ou por esperarmos retribuição.

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Do escritor alemão W.G. Sebald:

A coluna vertebral moral da literatura é o tema da memória. Para mim, parece claro que os que não têm memória possuem muito mais possibilidade de levar uma vida feliz.

Do escritor americano James Baldwin:

Nem tudo que se enfrenta pode ser modificado, mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado.

Da escritora argentina Silvina Ocampo:

Escrevo para não esquecer o que é mais importante no mundo: a amizade e o amor.

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