Lanço aqui o desafio. Pergunte a uma criança qual o princípio básico do comportamento ético. Na pureza da resposta, ela dirá que é fazer o bem. Bingo. Desde Sócrates e Platão a ética está ligada à virtude, à educação, à justiça, ao bem social, à busca por uma sociedade mais igualitária e democrática. Mas no “mundo do futebol” tudo é bem estranho.

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Jogadores não “agridem” somente a bola, como gostam de dizer os comentaristas esportivos modernosos. Costumam agredir, também, a civilidade, a educação e o bom senso. Descompromissados e alienados (com raríssimas exceções) ou mal assessorados (idem), foram normalmente criados sob uma ética própria, em que tudo era possível e permitido. Não é mais assim.

Enfiaram na cabeça deles, jogadores de futebol (muitos oriundos de uma extrema pobreza), que o “mundo da bola” era muito divergente do mundo aqui fora. Que as leis, para os boleiros, eram diferentes das escritas para os humanos mortais e ordinários – quer dizer, nós. Por isso sempre sentiram-se à vontade para defender condenados por estupro, apoiar políticos tiranos, atacar vacinas, praticar atos racistas e outras aberrações.

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Nesta construção de uma postura ética torta, disseram a eles que o dinheiro e a fama podem tudo, pagam tudo, compram tudo. Os tempos mudam. As coisas mudam. Para melhor. O que se dizia não dá mais para se dizer. O que se fazia não dá mais para se fazer. “A ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência”, afirma o professor Clóvis de Barros Filho.

Abro parênteses para uma crítica à minha nobre profissão: muitos desses jogadores-subcelebridades sempre receberam o apoio irrestrito de muitos jornalistas – estes também machistas, racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, ignorantes, cegos. Também temos a nossa culpa e responsabilidade no cartório.

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Ética não se compra na padaria da esquina. Ética não deve ser imposta por decretos ou leis, mas sobretudo pela educação. Assim a ética deve se formar e se afirmar, em qualquer setor da sociedade organizada. Com diversidade, cidadania e respeito. Contra todos os tipos de violência e discriminação. Fico com a pureza das respostas das crianças: ética é, acima de tudo, fazer o bem.

Leitura

Depois do sucesso mundial de “Torto Arado”, Itamar Vieira Júnior lança “Salvar o Fogo” (editora Todavia), mais uma obra-prima do escritor baiano. Difícil parar de ler. Quando vai-se chegando ao fim, diminui-se o ritmo, torcendo para que não acabe nunca mais e pensando quando Itamar escreverá o novo clássico da literatura brasileira. Lendo Itamar, percebo que venho me dedicando mais a nossos autores. Aqui vai uma lista de boas leituras:

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“O Manto da Noite”, de Carola Saavedra (Cia das Letras); “Dor Fantasma”, de Rafael Gallo (Biblioteca Azul); “A Pediatra”, de Andréa del Fuego (Cia das Letras); “Todos Nós Estaremos Bem”, de Sérgio Tavares (Dublinense); “Diorama”, de Carol Bensimon (Cia das Letras); “Velhos”, de Alê Motta (Reformatório); “Dia Um”, de Thiago Camelo (Cia das Letras); “Triste Não É ao Certo a Palavra”, de Gabriel Abreu (Cia das Letras); “A Segunda Morte”, de Roberto Taddei (Cia das Letras); “Uma Dor Perfeita”, de Ricardo Lísias (Alfaguara); e “Deus Não Dirige o Destino dos Povos”, do catarinense Marcelo Labes (Caiaponte).

Pra refletir:

“Chamamos de ética o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão olhando. O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém está olhando chamamos de caráter”.

Oscar Wilde, escritor

“Num país de miseráveis não é surpresa a barriga vir na frente da ética e da moral”.

Clóvis Rossi, jornalista

“A dimensão ética começa quando entra em cena o outro”.

Umberto Eco, escritor

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