Num quadro recente do grupo Porta dos Fundos, um radialista diz: “O Botafogo segue líder invicto no Brasileirão, com impressionantes 22 pontos de vantagem à frente do segundo colocado. Apesar de faltar somente uma rodada para o fim do campeonato, o time conta com apenas 0,3% de chance de conquistar o título, segundo o matemático Oswald de Souza. Afinal de contas, é o Botafogo”. Nada mais preciso para desnudar a natureza da alma do torcedor alvinegro.

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No passado nos acostumamos a vitórias e conquistas. Ao lado do Santos de Pelé, o Botafogo era o grande time nacional e internacional. Nos primeiros títulos mundiais emprestou à seleção brasileira o talento e a arte de Nilton Santos, Didi, Zagallo, Amarildo, Garrincha, Roberto Miranda, Paulo César Caju e Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970.

A gente se alimentava de glórias e sonhos. Bem antes de tempos globalizados, o planeta estava aos nossos pés. Os ventos mudaram. Administradores incompetentes nos impuseram o mundo real, repleto de enfrentamentos e dores. Desaprendemos a ganhar e, por consequência, a torcer. Mudamos. Passamos a viver sob o simulacro do caos e o fantasma do medo.

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Por onde andamos, em nossas costas carregamos três “ismos”: “pessimismo, ceticismo e derrotismo”. E o pior, parece que cultuamos e adoramos isso. Choramos muito.

Torcedor do Botafogo não pode ser considerado um sujeito normal. Ele merece ser objeto de pesquisas de sociólogos, antropólogos, psicólogos, romancistas, historiadores, psicanalistas e também da medicina mais tradicional e a da mais alternativa. É preciso entender por que tanta agonia e martírio; é preciso descobrir onde nasce tamanha tortura interior; de onde vêm este aperto no coração e o sofrimento.

Toda a novela que nos enreda já foi brilhantemente descrita por grandes escritores. Dois exemplos perfeitos: o mineiro Paulo Mendes Campos disse que “O Botafogo é um menino de rua perdido na poética dramaticidade do futebol”. Já o pernambucano Nélson Rodrigues escreveu: “O Botafogo é o clube mais passional, mais siciliano, mais calabrês do futebol brasileiro”.

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Neste momento de nossas desafortunadas vidas somos os líderes do Campeonato Brasileiro. Estávamos 12 pontos à frente do 2º colocado – hoje estamos apenas sete e faltam 13 jogos. Um técnico português foi embora, outro português chegou, o time parece ter perdido o prumo e o rumo, então demitiram o segundo português. Nossa torcida, que estranhamente estava positiva, não tem mais paciência, reencontrou a verdadeira essência e sente-se à beira do inferno. “O clima no Botafogo é mais ou menos o seguinte: o time está na zona de rebaixamento da liderança”, brinca o orgulhoso sofredor Rodrigo Araújo.

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Ser Botafogo é caminhar na linha tênue entre a esperança e a loucura, a felicidade e o desassossego, o sorriso tímido e a expansiva inquietação, entre o sentimentalismo e a dura realidade da vida ordinária. O Botafogo é, como definiu o jornalista Armando Nogueira, “uma predestinação celestial. Seu símbolo é uma entidade divina. Feliz da criatura que tem por guia e emblema uma estrela”.

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Somos o que somos, graças a todos os deuses do universo, e seguimos com nossos esporádicos gozos e nossas pesadas cruzes. Somos uma espécie raríssima de seres humanos, sem falsa modéstia.

Pra refletir:

“Tenho medo de burocratas e de impostos; tenho medo dos devotos, dos beatos, dos que nunca têm dúvidas, dos que nunca tiveram um desgosto de amor, das pessoas que não gostam do Chico Buarque, das que apreciam pastel de bacalhau com queijo e das que colecionam armas de fogo. Mas não, não tenho medo da inteligência artificial”

José Eduardo Agualusa, escritor angolano

“No meio do silêncio e do verde, a presença de Deus fica mais clara. Essa luz ilumina os porões da mente, desfaz o mofo, espanta os fantasmas. Com cuidado, chamo a isso de ‘felicidade’. Ela pousa, muito leve, no telhado desta casa”

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Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro

“A contradição do ser humano é que ele quer transcender, e isso nunca vai acontecer porque somos limitados. É preciso aceitar os recursos que temos e fazer o máximo para aplicá-los. O motor disso é o amor, o entusiasmo, o interesse, a curiosidade”

Eduardo Costantini, empresário argentino e colecionador de arte

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