Estão à altura de nossas mãos e nossos olhos dois baitas casos de investigação, de estranhamento, da busca incansável, incessante e inegociável pela verdade – custe o que custar, doe a quem doer. O primeiro em forma de leitura. O outro, em forma de série de televisão. Ambos imperdíveis.

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Caso 1: Repórter investigativo, Ronan Farrow é autor do livro “Operação Abafa – predadores sexuais e a indústria do silêncio” (Editora Todavia). Em mais de 400 páginas de minuciosa apuração, ele mostra como foi armado o esquema para proteger, nos Estados Unidos, abusadores sexuais como o poderoso produtor de cinema Harvey Weinstein. Difícil acreditar que toda essa absurda história não vire um filme.

Quando começou a receber e captar as informações, Ronan trabalhava para a NBC. Pressionados, os diretores fizeram de tudo para derrubar a reportagem – e conseguiram, em um dos capítulos mais deploráveis da história da TV americana. Acuado, assustado, perseguido nas ruas por agentes de uma empresa de espionagem israelense, o repórter decidiu levar todo o conteúdo para a revista “New Yorker”.

Corajosas, atrizes que sofreram abusos aceitaram fazer devastadores e aflitivos depoimentos. Ronan tinha ainda gravações que comprovavam o comportamento sexual predatório de Weinstein – tudo o que, covardemente, a NBC tentava ocultar. Após passar por rigorosa checagem na “New Yorker”, a bomba foi publicada.

Dias atrás o magnata de Hollywood foi condenado pelos crimes de abuso sexual e estupro na Justiça de Nova York. Weinstein será sentenciado de cinco a 25 anos de prisão. No fim do livro, Ronan manda um recado simbólico: “Histórias difíceis não são contadas sem empresas que estejam dispostas a atravessar a tempestade”.

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Caso 2: Já em “Quem matou Malcolm X?”, série de seis capítulos da Netflix, quem faz jornalismo de primeira é o historiador Abdur-Rahman Muhammad. Malcolm X era ativista dos direitos civis e rival de Martin Luther King. Pacifista, MLK recebeu o Nobel da Paz pelo combate contra a desigualdade racial. Inflamado, Malcolm X não via outra saída a não ser o conflito. Foi assassinado em 21 de fevereiro de 1965 no Audubon Ballroom, Nova York, em frente à mulher e às filhas. Três homens foram condenados, apenas um admitiu ter participado do crime.

Aqui entra Abdur-Rahman Muhammad. Heroico, indomável e emotivo, ele escarafuncha a tumultuada relação de Malcolm X com a Nação Islâmica – grupo liderado por Elijah Muhammad. Revolve a história oficial, cheia de buracos. E revela esmagadoras falhas da investigação ao se deparar com os documentos do FBI. Para quem aprecia o casamento de história com bom jornalismo, é um prato cheio.

Quatro perguntas

O escritor paquistanês Tariq Ali disse, recentemente, que faz sempre quatro perguntas para medir se um país está realmente se desenvolvendo:

1) Esse país oferece casas para o povo morar?

2) Esse país põe comida no prato de sua gente?

3) Esse país dá educação às crianças?

4) E esse país leva segurança e saúde à população?

Pelo visto, o Brasil e muitos outros países estão falhando na resposta a essas questões.

Uma resposta

Sobre a “cultura do cancelamento”, que perseguiu fantasias e blocos no Carnaval que passou, a melhor resposta é a da pesquisadora Rachel Valença: “O que ofende o índio é o tratamento desumano que recebeu e recebe do poder público, é a incompreensão e o desrespeito à cultura, o apagamento de direitos de cidadão. Essa é a luta que devemos apoiar, enfrentar e compartilhar, sem perder  tempo com discussões fúteis. As pessoas perderam o senso do ridículo”.

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Muita calma agora

O coronavírus chegou oficialmente ao Brasil. Hora de tranquilidade, de não praticar o alarmismo, nada de desassossego ou sobressaltos. Hora de praticar cidadania e humanismo, de ensinar as pessoas como agir, o que fazer para cuidar da saúde. Hora de combater notícias falsas e campanhas de desinformação. Muita calma nessa hora.