Estava cansada da vida ordinária. Planejava a fuga há meses, talvez anos. Sobravam possibilidades, faltavam coragem e algum dinheiro. Queria escapar das garras da cidade grande, de facilidades e tentações, perigos, idiossincrasias, amores e ódios fáceis, contradições e conflitos. Sobravam alternativas, “Para onde ir?”, se fazia esta pergunta de forma obsessiva.
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Santa Catarina, Piauí, Maranhão, Bahia, Rio, João Pessoa, serra, campo, muito céu, pouca gente, muito espaço, rara conexão. Semear a terra, colher os frutos. O sol que racha, a lua que perfura o zinco, o ar puro no rosto. A vida simplória na companhia de Coetzee, Cecília, Pamuk, Borges, Vinícius, Hatoum, Cacaso, Camus, Virginia. A vida com poucos gastos e a parceria de Chico, Elis, Clara, Arnaldo, Bethânia, Gil, Rita, Roberto, Gal. A vida para deixar correr pela janela, como a fumaça de um cigarro barato, pensamentos que se desfazem no espaço. Aonde ir?
Planejava fazer uma mala despida de agendas, compromissos, horários, pressa, trânsitos, paranoias, medos, arrependimentos. Sabia que a renúncia ao estilo de vida forjado em tantos anos poderia cobrar um preço alto. Cinemas, restaurantes, teatros, as sirenes, a fumaça das fábricas, o caos, a correria do cotidiano. Tudo estava embrenhado em sua alma, em seu corpo, em seu sangue. Filhos, amigos, namorados, trabalho, um futuro de promessas e moedeira, tudo ficaria para trás.
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Tinha pressa, receios, preocupações práticas, sentimentos inevitáveis – e o inevitável não causa menos choque só por ser inevitável, lembrou Jamaica Kincaid. Queria descobrir onde foram se refugiar seu destemor, sua desambição. Não era mais uma menina, não havia mais tempo a perder.
A noite veio, o sono escapou. Fechou os olhos, decidiu-se. Gostava de olhar o mar, se sentia viva no furar das ondas, nos efeitos do sol e do sal na pele morena. A praia devolveria a energia e a esperança de dias mais generosos. Não há mais tempo a perder.
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Sorriu, desligou o abajur, encontrou o sono reparador no frescor da madrugada. Sonhou com o silêncio das pinturas de Edward Hopper. Queria encontrar a felicidade numa impossível vida sem conflitos.
I have a dream
Roubando a histórica frase do líder Martin Luther King, tenho um constante sonho. Como amante do futebol, sonho com o aparelho de TV em que se pode apertar uma tecla e ouvir apenas o som ambiente dos estádios. As manifestações dos torcedores, os gritos dos técnicos, o apito dos árbitros, as reações dos jogadores. Este é o meu único e insistente sonho.
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É doloroso acompanhar as transmissões dos jogos. É sofrível ouvir as aberrações verborrágicas e os boleirismos “muderninhos” de narradores e comentaristas.
A arte dos microcontos
Eduardo Galeano, escritor uruguaio:
“Comer sozinho é uma obrigação do corpo. Com você, uma missa”
Augusto Monterroso, escritor hondurenho:
“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”
Cíntia Moscovich, escritora brasileira:
“Uma vida inteira pela frente. O tiro veio de trás”
Jeferson Bandeira, escritor brasileiro:
“Casou-se à força. Aquela semideusa o fisgou pelo calcanhar”
Paulo Camossa Júnior, escritor brasileiro
“Augusto trabalha sete dias por semana. Mais que Deus”
João Carrascoza, escritor brasileiro:
“É no poder do mínimo que está a nossa vivência”
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