Sou do tempo em que as pessoas gostavam de ler – jornais, revistas, gibis, tabloides, panfletos, o que caísse nas mãos era devorado. Lia-se em qualquer lugar. Em recente viagem ao exterior, vi três meninas com livros em curto espaço de tempo: uma à mesa do café; outra à frente da loja em que trabalhava, enquanto fumava; e a terceira no banco de uma praça lisboeta. Pareciam três extraterrestres. Hoje tão rara, a imagem de alguém que lê surpreende e emociona.

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“O livro é uma extensão da memória e da imaginação”, disse o argentino Jorge Luis Borges. Nos metrôs de Paris, Nova York, Londres, Rio, São Paulo, Moscou, Cidade do México, Lisboa ou Buenos Aires, o livro era a companhia perfeita. Todos liam freneticamente. Hoje as pessoas estão debruçadas sobre o celular, digitando ou vendo algum vídeo. Tempos de modernidade e redes antissociais.

Na juventude, os ônibus desconfortáveis e calorentos não eram obstáculos. Tinha nos livros meus companheiros inseparáveis – na ida para a escola, a casa da namorada ou um chope com os amigos. Cada leitura incitava outra leitura. Cada livro levava a outro livro.

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Na mochila surrada estavam eles: Drummond, Amado, Zélia, García Márquez, Trevisan, Pessoa, Patricia Highsmith, Agatha Christie, Fernando Sabino, Edgar Allan Poe, Rachel de Queiroz e tantos outros. Eles não me largavam. Eu não os abandonava. A perfeita relação de amizade.

Nas férias em Araruama, cidade da Região dos Lagos do Estado do Rio, o ritual era o mesmo. Minha mala era dividida em roupas e livros – às vezes, mais livros do que roupas. “O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado”, escreveu o poeta Mario Quintana. Pouca coisa na vida é mais gostosa do que ler deitado numa rede pendurada na varanda.

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Mas o cotidiano empurra para estradas espinhosas. O tempo fica curto. O cansaço, o estresse e as obrigações do ordinário cotidiano são massacrantes. Confesso que, durante muitos anos, fui negligente e desleixado em meu romance com os livros. Até que chegou a maldita pandemia.

Muitos meses sozinho. Trabalhando de casa, isolado. Longe de meus amores, tinha os livros. Graças a eles fiz amigos como os livreiros Zil, Monica, Lauro e Rodrigo. Abri meu coração para novas e maravilhosas autoras brasileiras, mexicanas, argentinas, chilenas, peruanas, salvadorenhas, hondurenhas, sul-coreanas, japonesas, americanas, europeias. Pude reencontrar Cortázar, Borges, Auster, Coetzee, Hatoum, Guimarães, Cecília, Clarice, Lygia, Cora, Hilda, Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Adélia, Ana Cristina César, Manoel de Barros, Cacaso, Ferreira Gullar, Saramago…

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Na pandemia a leitura foi o meu esteio. Desde então, os livros e eu somos quase um só, nossa separação é inegociável. Mantemos uma relação sagrada. É uma desmedida alegria guardar, na memória, a imagem das meninas com seus livros.

Em seus lindos versos, o poeta indiano Rabindranath Tagore resume tudo:

“Um livro aberto é um cérebro que fala;

Fechado, um amigo que espera;

Esquecido, uma alma que perdoa;

Destruído, um coração que chora”      

Viva Fernandinha!

Antes de qualquer coisa, Fernanda Torres é uma atriz espetacular e “Ainda Estou Aqui”, um filme muito bom. Dito isto, Fernandinha é uma das indicadas ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em filme de drama. Ela terá como concorrentes, no dia 5 de janeiro de 2025, alguns dos maiores medalhões de Hollywood: Angelina Jolie, Nicole Kidman, Tilda Swinton, Kate Winslet e Pamela Anderson. Pode ganhar, pode perder. Se ganhar, histórico. Se perder, divino. Portanto, ao lixo com o chororô, a síndrome de rejeição e o vira-latismo que nos perseguem. 

Viva Fernandinha e o cinema brasileiro. 

“Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro”, Henry Thoreau, poeta americano

“Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós”, Kafka, escritor tcheco

“Não há melhor fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, Emily Dickinson, poetisa americana

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