O “Saturday Night Live” foi ao ar pela primeira vez, na televisão americana, em outubro de 1975. Desde então debocha da política e ajuda a lançar grandes nomes da cultura dos Estados Unidos. 

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Todos os ex-presidentes foram alvos das brincadeiras do “SNL”. Agora é a vez de Donald Trump, interpretado pelo ator Alec Baldwin. O programa continua tão importante e divertido, 44 anos depois, que muita gente só sai de casa para a balada, em Nova York, após vê-lo nas noites de sábado.

O humor se fortalece em momentos conturbados. Enquanto o jornalismo deve tratar os fatos com responsabilidade e acuidade, o humor tem liberdade e o faz com ironia e perspicácia. Tem gente que gosta, tem gente que não gosta.

Aqui no Brasil ganham força, neste momento, o “Zorra”, o Porta dos Fundos, os chargistas de jornais, o Sensacionalista (“Isento de verdade”, como diz o slogan do site), a zombaria escancarada de José Simão na rádio, as imitações de Marcelo Adnet.

Durante anos, nos acostumamos com o humor social de Jô Soares e Chico Anysio. Os Trapalhões eram diferentes. Escrachados demais, não sobreviveriam sequer uma semana hoje, tempos dos patrulheiros do politicamente correto e das milícias antissociais.

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Volto aos EUA. Na primeira década deste século me acostumei a ver o republicano George Bush Filho e o democrata Barack Obama nos principais talk shows da TV. Eles respondiam a perguntas embaraçosas. E tinha o humor. Apesar de tudo, Bush e Obama conseguiam rir e nos fazer rir.

Talvez isso ajude a explicar o sucesso e a força da democracia americana. Criticam, ironizam, satirizam. Mas respeitam a liturgia do poder. Conhecem o real valor da alternância, sabem que tudo passa, nada é para sempre. Aprenderam a brincar com eles próprios. E, repito, respeitam a liturgia do poder.

No Brasil estamos distantes de tudo isso. Somos hoje um país ruim do pé e doente da cabeça. O criador do Sensacionalista, Nelito Fernandes, afirma: “O humor contribui para o debate porque ao menos tenta desarmar os espíritos. Um dia a gente ainda vai rir de tudo isso. Por que não agora?” 

Já Maurício Stycer, crítico de TV, acrescenta: “O humor inteligente alivia a barra em eras de patetice quase generalizada.”

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E fecho com o filósofo francês Émile-Auguste Chartier: “O bom humor tem algo de generoso: dá mais do que recebe.” 

Estado de espírito

Para refletir, provocação do cantor e compositor australiano Nick Cave: “Posso controlar o tempo com o meu estado de espírito. O problema é que não consigo controlar o meu estado de espírito.”

Visão teatral

De Mark Lilla, cientista político e historiador americano, em entrevista à revista “Época”: “A esquerda gosta de resistir, não de governar, porque tem uma visão teatral da política: nós resistimos, nós falhamos, nós resistimos de novo. É um ciclo vicioso.”