Em uma manchete publicada no último fim de semana, o site Sensacionalista informou: “Humanidade não deu certo, diz Humanidade”. Uma piada com total fundo de razão. Depois de ver o novo filme de Martin Scorsese, “Assassinos da Lua das Flores”, não sobram mais dúvidas. A Humanidade e o ser humano são obras inviáveis, não há saída para nós. (Não é nem preciso falar sobre as guerras em curso pelo mundo, todas elas sinônimos da banalidade do mal, do terror, da estupidez, da desumanização.)

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“Assassinos da Lua das Flores” é um acontecimento épico. É o renascimento do cinema pós-pandemia. Tem três horas e 26 minutos. Tudo no lugar. Nada a cortar. Para Manohla Dargis, crítica do “The New York Times”, é uma “comovente obra- prima”. Uma preciosidade com Lily Gladstone, Robert De Niro, Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons e tantos outros atores e atrizes de primeira grandeza.

(Aviso, spoiler de antipatia: se você tem que cuidar das crianças ou está preocupado com alguma apoquentação cotidiana, fique em casa, espere chegar ao streaming. É mais honesto com você e mais empático com quem está na sala escura para se divertir e admirar o filme. Simples assim.)

Um pequeno resumo. Baseado no livro homônimo do jornalista e escritor David Grann, o filme conta a história de indígenas da etnia Osage que ficam milionários graças aos poços de petróleo descobertos em suas terras, no Estado americano do Oklahoma. O povo Osage se torna o grupo mais rico do mundo. Usam roupas caras e elegantes, tem carros modernos, vivem em casas bonitas.

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César Seabra: Saudades do Bloco da Vaca e do petricor

A prosperidade e a desgraça começam a andar juntas em 1920. A intimidade e o horror da violência se misturam: os brancos se aproximam, casam com os osages, formam famílias, têm filhos. A ambição, a ganância, a crueldade e a traição falam mais alto. Os indígenas começam a ser assassinados, um a um. Envenenamento é uma das armas dos criminosos. O “ouro negro” vira pesadelo.

“Ao pesquisar os julgamentos, percebi que os crimes não eram entre pessoas que se odiavam. Em muitos casos, aconteciam entre pessoas que se amavam”, disse o diretor Scorsese em entrevista ao
“Fantástico”.

Uma curiosidade: a onda de homicídios contra os osages transformou-se no primeiro grande caso para a pequena agência que se tornaria o FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. O embrião do FBI já era então comandado por um jovem astuto e muito ambicioso politicamente: J. Edgar Hoover.

“À medida que a notícia se espalhou, oportunistas chegaram às terras dos osages, procurando separá-los da sua riqueza por qualquer meio necessário – até mesmo assassinato”, afirma o FBI em sua página sobre o caso.

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Veja o trailer do filme “Assassinos da Lua das Flores”

Tragédias como esta dos osages (assim como todas as guerras) jamais poderão ser completamente explicadas ou entendidas. O escritor britânico Joseph Conrad acende um fósforo em meio à escuridão: “A crença em uma origem sobrenatural da maldade não é necessária. Homens sozinhos
são capazes de qualquer maldade”.

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A Humanidade e nós, com o que ainda nos resta de humanos, somos mesmo inviáveis e impossíveis.

Para refletir

“Todos os pecados têm origem num sentido de inferioridade, também chamado ambição.”

Cesare Pavese, escritor italiano

“A ganância humana não dá tréguas e desconhece limites”

Charles Bukovski, escritor alemão

“Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante.”

Clarice Lispector, escritora brasileira

“A filosofia pode servir pra tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes.”

Albert Camus, escritor argelino em “O Homem Revoltado”

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