Embalado pelo sucesso de “Torto Arado”, Itamar Vieira Junior recém-lançou “Salvar o Fogo”. Uma crítica literária não gostou e fez o trabalho dela: criticou o novo livro de Itamar.

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Itamar não gostou da crítica feita pela crítica literária. E a criticou num artigo publicado em um grande jornal.

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Aí o escritor angolano José Eduardo Agualusa também não gostou do tom da crítica que Itamar fez à crítica literária e criticou o escritor baiano.

Ufa, a confusão posta sobre a mesa. A crítica da crítica da crítica… “As pessoas pedem uma crítica, mas querem apenas um elogio”, escreveu o romancista e dramaturgo W. Somerset Maugham.

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É preciso maturidade para aceitar uma crítica. Durante muitos anos a música brasileira conviveu com José Ramos Tinhorão. Ele era ácido. Colecionou polêmicas com monstros como Paulinho da Viola, Chico Buarque e Tom Jobim — classificado por Tinhorão não como um genial criador, mas “um arranjador”.

A complacência desavergonhada, apoiada pelos bajuladores

Já a nossa literatura teve como referência o crítico, professor e sociólogo Antonio Candido, que resenhou os primeiros livros de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector.

O cinema teve as críticas da americana Pauline Kael. Ela era espirituosa e mordaz. Atrizes, atores, cineastas e produtores temiam suas resenhas, publicadas na “The New Yorker”. Pauline tornou-se uma das críticas mais influentes da história do cinema. “Nas artes, o crítico é a única fonte independente de informação. O resto é publicidade”, ela costumava dizer.

Jogadores e técnicos do futebol brasileiro odeiam a crítica esportiva. Fazem greve de silêncio, hostilizam repórteres, culpam jornalistas e comentaristas por eventuais derrotas e crises de seus times. São mimimizentos, primadonas, subcelebridades, egocêntricos e obtusos, com raras exceções.

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“Elogios são agradáveis, mas distraem-nos do essencial, e não nos ensinam nada. Já as críticas negativas, essas sim, parecem-me muito importantes”, escreveu o angolano Agualusa.

O que somos sem o pensamento e o espírito críticos? O que somos sem o senso crítico na nossa formação ética? O que somos sem aprender a debochar de nossa própria ignorância e de nossos erros? O que somos sem o estranhamento? O que somos sem a aceitação da opinião alheia equilibrada, criativa, honesta e respeitosa? Sem tudo isso, somos rigorosamente um ego aprisionado numa bolha.

Ah, o que achei de “Salvar o Fogo”, o novo livro de Itamar Vieira Junior, o maior fenômeno recente da literatura brasileira? Se eu fosse crítico literário…

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