A cantora, compositora, escritora, poeta, pintora e fotógrafa americana Patti Smith escreveu, no belíssimo “Só Garotos”, que apenas um jovem pode entender completamente o que se passa na cabeça de outro jovem. Esta sensação é reforçada quando se vê o também lindíssimo “Gasoline Rainbow”, dos irmãos Turner e Bill Ross.

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Agora cuidado, há um pouco de spoiler adiante.

O filme mostra cinco amigos recém-saídos do ensino médio americano. Jovens de Wiley, cidade fictícia do Oregon. Se consideram “estranhos”. Vão para a costa do Pacífico numa van mequetrefe e mochila nas costas. São ainda crianças, não curtiam a escola, nem a vida doméstica. Ao longo das peripécias e pedras do caminho, conversam sobre perdas, medos, angústias, desilusões, deportação, família, fracasso, amor, futuro, ausência, inconsistência, a mesmice asfixiante da vida.

Fumam, bebem, dançam, choram, sonham, são solidários, conhecem pessoas também “estranhas” e boas. De acordo com a crítica do The New York Times, “há uma doçura incomum neste filme, que é menos sobre fugir de algo e mais sobre descobrir que o caminho da vida está repleto de bondade, se você souber onde procurar”.

“Gasoline Rainbow” me faz recordar tempos em que gostava de acampar. Mochila, panelas, garrafa de água e barraca pesada nos ombros. Longas caminhadas sob o sol inclemente ou as subidas aflitivas. O cansaço, calor, frio, as noites mal dormidas, os raros banhos, o macarrão já ruim com um pouco de areia. Algumas vezes a chuva forte, outras vezes a lua como companheira solitária. O porco que tenta invadir a barraca.

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O rio de água cristalina e muito gelada.

O vento que surpreende.

O mar de ondas fortes.

O maldito vinho Sangue de Boi e a dor de cabeça lancinante na manhã seguinte.

Sobretudo as pessoas. Pessoas “estranhas” e boas que apareciam, ajudavam, conversavam, dividiam a comida, a bebida, as experiências, suas histórias. Pessoas “estranhas”. Pessoas boas. Os encontros.

Olho em retrospectiva, quase 50 anos depois, e vejo o desatino daquilo tudo. O filósofo espanhol Ortega y Gasset escreveu: “O jovem não precisa de razões para viver; precisa só de pretextos”. O pretexto ali era bem simples: buscar a felicidade nas pequenas coisas.

Mas é realmente difícil explicar. Somente um jovem para entender o que se passa na cabeça de outro jovem.